Flagra na fila

Parecia cena de filme. Na fila de espera para o motel, Renata estava no carro curtindo o início de namoro. Havia dois carros na frente do jovem casal e um deles era o carro do pai. Enquanto arrumava os cabelos no espelho, inevitavelmente Renata reconheceu a placa.

Sua primeira reação foi abaixar. Enquanto Marcos tentava entender o que a namorada estava fazendo, Renata questionou se a passageira era a mãe.

Marcos avançou para finalmente ser atendido e Renata pediu meia volta. Não conseguiria ter uma faísca de tesão imaginando seu pai, nu, ao quarto ao lado, traindo sua mãe.  Indignada, Renata pediu para estacionarem ali. Ela queria esperar para flagrar a traição.

Era impossível estacionar na BR e Marcos realmente não queria participar de uma briga familiar. Com toda a paciência de um homem que encara sua chance de transar naquela noite ir embora, Marcos convence a pequena a voltar para casa e talvez conversar com a mãe.

Em choque, Renata seguia a inércia e só conseguia pensar naquela decepção. Seu pai era, de fato, o homem que ela mais admirava na vida.

Ao chegar, ela não vê o carro do pai na garagem. Imediatamente, ela procura pela mãe.

Cláudia era uma senhora enxuta, a clássica dona de casa. Ela questiona porque a filha voltou tão cedo. Antes mesmo que ela respondesse, Cláudia chama a filha para se juntar a ela no sofá.

Renata molhou a garganta para contar a mãe tudo que viu.

Cláudia interrompeu seus pensamentos com uma gargalhada. A senhora adorava aqueles programas de humor do sábado à noite.

Confusa, Renata questionou se deveria ou não atrapalhar a noite tranquila da mulher que ela mais amava na vida.

Esse pensamento não durou muito. A mãe não merecia ser enganada. Ninguém merecia.

A menina respirou fundo e contou.

Renata explicou os detalhes e tudo que sentiu. Cláudia ouvia com atenção e quando a filha começou a chorar, imediatamente ofereceu seu colo de mãe.

Antes que Cláudia começasse a dizer qualquer coisa, Renata interrompeu falando que não seria capaz de perdoar o pai, os homens, e como seria a vida das duas ali em diante.

Renata comentou de um amigo advogado e de como tudo daria certo.

Estranhamente, era Cláudia quem consolava a filha.

A reação da mãe fez Renata se sentir uma criança de cinco anos. Sem dizer uma palavra, Cláudia se levantou e foi para cozinha.

Voltou a sala com um chá e um remédio. Disse palavras doces para a filha se acalmar.

De início, Renata se indignou com a reação apática da mãe. Cláudia pediu paciência e como boa caçula, Renata obedeceu.

Antes de pegar no sono, ali mesmo no sofá, Renata pediu a mãe para que conversasse com seu pai, mas que não contasse a ele que foi ela quem viu.

Cláudia esperou a filha dormir para, finalmente, chorar.

Renata não tinha mesmo superado a morte do pai.

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