Um coração por trás da rotina

Era mais um dia de hora-extra.

Gabriela estava exausta e, ao chegar em casa, mal tinha forças para dar comida ao gato. Além do cansaço físico, ela estava de saco cheio por fazer tudo no automático.

Os dias eram exatamente iguais. O mesmo ônibus, o mesmo mau-humor do chefe, o mesmo restaurante, as mesmas desculpas que ela dava para si mesma para não fazer academia, procurar outro emprego, começar um curso e, até mesmo, fazer as unhas.

Ela deu comida ao gato, ligou a TV e, entre uma cochilada e outra, negociava com ela mesma se deveria tomar banho ou, simplesmente, lavar o rosto e escovar os dentes.

O telefone tocou embaralhando sua negociação. Gabriela mal lembrava que tinha um fixo em casa. Engano, é claro.

A chamada persistiu até ela se arrastar para atender. Enquanto seus dedos seguravam o aparelho, o telefone desligou. Ódio.

Inevitavelmente, Gabriela se olhou no espelho e não se reconheceu. Mais uma vez, o telefone tocou atrapalhando seus pensamentos. Ainda em choque com a figura que a encarava no espelho, ela suspira um alô. Do outro lado da linha, uma voz familiar veio como um abraço apertado.

Completavam dois anos que ela e Sofia não se falavam. O silêncio tímido dos segundos iniciais fez Gabriela se sentir uma adolescente. Sofia queria saber se poderia, finalmente, pegar as últimas coisas dela que ainda estavam no apartamento.

De costas para o espelho, Gabriela tentava adivinhar o que tinha na geladeira. Ela pensou que, se tivesse um vinho, prepararia um macarrão. Seria ótimo.

Com uma espantosa animação, Gabriela disse sim. Sofia chegaria em 1 hora.

É dada a largada. 60 minutos separariam a apática Gabriela que se via espelho da deslumbrante morena que Sofia conhece.

Gabriela tomou banho, raspou as pernas e pinçou a sobrancelha. Colocou o macarrão para cozinhar enquanto escolhia a roupa. O interfone tocou e Gabriela ainda estava com a toalha na cabeça. Ela tirou, sacudiu os cabelos para dar o ar despojado de estava-em-casa-tranquila-e-linda, abriu a porta do apartamento e sorriu.

Sofia estava com o uniforme do trabalho e o cabelo pingando óleo. Sem pedir licença, entrou. Olhou para cara de Gabriela como quem olha para um parente distante e perguntou se ela estava esperando alguém.

Gabriela respondeu que não. Então, perguntou se ela estava om fome, pois, veja só, tinha um macarrão prontinho, duas taças e um vinho.

Sofia recusou enquanto sumia no corredor. Antes que Gabriela insistisse no convite, ela se despediu e agradeceu.

As duas sequer se encostaram.

Enquanto Gabriela comia sozinha aquele macarrão empapado, perguntou pra si mesma porque nunca teve coragem de se declarar para sua inquilina.

O questionamento durou pouco. Já era tarde e Gabriela precisava acordar cedo para não se atrasar no trabalho.

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