Samba para Iaiá

Era uma segunda-feira. Iaiá separou o seu melhor vestido, passou batom e deixou seus cabelos secarem naturalmente. Deu uma última olhada no espelho enquanto esperava o táxi. Esta noite, ela queria voltar pra casa com uma boa história para contar.

Sair sozinha nunca foi um problema. Pelo contrário, ela amava o tempero da independência. Iaiá gostava de ser surpreendida pelas incertezas.

Quando chegou, todos os olhares se voltaram para ela. Mais pelo seu sorriso do que pelas belas pernas, Iaiá era uma mulher contagiante. Dançando já na fila de entrada, ela trocou olhares com um rapaz que fumava na porta.

Ele ofereceu a cerveja como quem gostaria de brindar. Propositalmente, ela ignorou. passou do seu lado e entrou. Imediatamente, ele foi atrás e ainda conseguiu ver o verde do seu vestido florido se escapar.

Iaiá comprou uma ficha de cerveja e sentia seus pés a desobedecendo. Seu corpo inteiro estava envolvido no ritmo do samba. Com a latinha gelada em mãos, ela distribuía sorrisos e ensaiava uns passinhos sozinha. No palco, a banda começava a se preparar para um show ao vivo.

Iaiá estava com os olhos fechados quando o vocalista começou a primeira nota de Cartola. “Alegria era o que faltava em mim” … Iaiá abriu os olhos e viu aquele moreno, o mesmo flerte da entrada, cantar olhando pra ela, só pra ela. Naquele momento, Iaiá se sentiu a dona do samba.

Ele parecia hipnotizado e foi a vez dela oferece a cerveja. No intervalo, ele desceu do palco obstinado. Ela esperava o mesmo papo de sempre, mas estava disposta a ouvir cada virgula. Ele foi direto e a surpreendeu, falando que tudo que ele cantaria ali, naquele palco, era pra ela.

Iaiá já carregava o nome de samba e se sentiu a mulher mais bonita daquela noite. Ele se apresentou, ela sorriu e conversara sobre amenidades. Ele pediu um beijo, ela avisou que já estava na hora dele voltar ao palco.

De lá, ele dedicou todas as músicas para Iaiá e todos os olhares se voltaram a ela. Não tinha holofote, mas suas bochechas coradas ascenderam feito dois faróis. Iaiá ficou ainda mais iluminada e, do palco, o sambista ficou apaixonado.

Ela se entregou ao samba e fez questão de dançar sozinha.

O show acabou e Iaiá esperou. Eles trocaram meia dúzia de elogios e, em seguida, tomaram um táxi para o motel.

Foi ali, naquele motel de esquina com paredes de azulejo que Iaiá se sentiu a mulher mais desejada do mundo. Não que o sambista fizesse tantos cortejos, mas Iaiá se sentiu dona do samba e da situação.

Iaiá fingiu dormir até ele adormecer. Vestiu suas roupas e se despediu em silêncio. Deixou a conta para o sambista pagar.

Chegou em casa e tomou um banho demorado. Deitou ao lado do marido e dormiu embalada por uma boa história para contar e um samba só seu pulsando na memória.

Alegria
Era o que faltava em mim
Uma esperança vaga
Eu já encontrei,
Pelos carinhos que me faz
Me deixa em paz,
Não te quero ver,
Para nunca mais.

Eu sei
Que teus beijos e abraços,
Tudo isso não passa,
De pura hipocrisia,
Já que tu não és sincera,
Eu vou te abandonar,
Um dia.

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