Dia seguinte

Para Camila, o sexo é um contrato velado entre duas pessoas quando os corpos assinam, em silêncio, um termo de compromisso. Em troca da intimidade, os corações dos envolvidos precisam, necessariamente, entrar em sintonia. Na verdade, Camila coloca tanta responsabilidade em cima do sexo que o dia seguinte é o seu pior pesadelo. Ela fazia até promessa para não cair em tentação no primeiro encontro diante do medo da rejeição de horas depois.

Camila temia o julgamento. Não queria parecer fácil, também não queria parecer difícil, não queria parecer imatura, tampouco vulgar; Não queria parecer nada que ela não fosse quando, bem lá no fundo, nem a própria Camila sabia se queria ou não queria parecer alguma coisa.

Embaralhada em seus próprios pensamentos inconfessáveis, Camila se preparava para o segundo, talvez terceiro, encontro com Marcos. Ele tinha uma conversa mole que, de tão mole, Camila tinha sono logo no alô. Mesmo assim, as investidas de Marcos poderiam render uma história legal. Ela era viciada em histórias e acasos. A paquera começou no elevador, pulou para a xícara de açúcar e foi direto para o filme numa segunda-feira qualquer. Um romance com o vizinho é um clássico das comédias românticas e, para protagonizar esse roteiro, Camila engoliria todos seus bocejos.

Desta vez, eles saíram do prédio e jantariam fora. Camila dispensou as amigas para conhecer mais sobre o futuro médico de sorriso engraçado. Meia hora antes do combinado, Marcos desmarca com uma desculpa previsível. O desapontamento de Camila não durou cinco segundos, já que seu coração se encheu de alívio por não ter transado com aquele cara. Respondeu com um sorriso simpático e uma promessa de “depois marcamos”.

Para não desperdiçar o vestido preto e a maquiagem quase terminada, Camila aciona as amigas que já estão na fila daquele pub recém-inaugurado. Camila quis valer a sexta-feira e aproveitou ao máximo a rodada dupla de tequila. Quando o moreno de cabelo enroladinho perguntou seu nome, ela respondeu com um beijo completamente atrapalhado. Ali, Camila dispensou seus próprios julgamentos e quis ir até onde queria. Qualquer contratempo seria culpa da embriaguez.

Então, ela entrou no carro do homem que ela mal sabia o nome. Nem com a graça da amnésia alcoólica a tequila premiou Camila. Ela acordou com dor de cabeça e afogada por todos os detalhes da noite anterior. Enquanto ele dormia, Camila ria baixinho das gafes que cometeu, daquela joelhada que quase colocou tudo a perder pelos minutos seguidos de gargalhadas. Camila também se lembrou da liberdade que sentiu por, finalmente, seguir sua vontade.

Quando ele acordou, ela ainda olhava para o teto distraída. Sentiu o beijo de bom dia como o despertador tocando. Camila caiu em si. Ela mal sabia o nome daquele cara. Enquanto eles se recompunham, ele prometeu que a deixaria em casa. Camila estava monossilábica, mas se esforçou para parecer agradável.

Na porta de casa, ela soletrou os primeiros números que vieram a sua cabeça para que ele gravasse na agenda. Ela preferiu não correr o risco dele não ligar no dia seguinte.

Camila não sabe, mas ele realmente nunca ligou.

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