Não foi ela, fui eu

Era uma madrugada de verão e, mesmo assim, Rosário estava embrulhada na coberta. Imóvel, ela fingia dormir desde o primeiro intervalo da novela.

Rosário ouviu Wagner desligar a TV e resmungar sozinho numa tentativa frustrada de atrapalhar seu sono que nem existia. Quando ela sentiu seu corpo pesado do outro lado da cama, abriu os olhos.

Ainda sem se mexer, a mulher esperou o tempo passar arrastado, assistindo ao reflexo do pisca-pisca na cortina. O fato dela ainda não ter desarmado a árvore de Natal atropelou seus pensamentos confusos. Sua hipnose pelo jogo de luzes coloridas foi interrompida pela primeira respirada carregada de Wagner.

Ele dormiu.

Rosário arrastou a mão por baixo do travesseiro em movimentos milimétricos. Instantaneamente, suas mãos começaram a suar.

Ela agarrou o cabo da faca com tanta força que suas unhas quase cortaram a palma da mão.

Rosário molhou os lábios e se levantou devagar. De costas para Wagner, se sentou na cama e colocou os pés descalços no chão. Agora, ela via sua silhueta dançando com as luzes de natal. A alegria inquieta daquelas cores preencheram com coragem o peito de Rosário.

Wagner se mexeu. Ela o olhou de lado com superioridade. Em seu sono tranquilo, quase angelical, Rosário observou cada detalhe de seu corpo.

Com a faca segurada pelas duas mãos, ela se posicionou. Rosário ergueu as mãos e fechou os olhos com tanta força que eles pareciam sangrar.

Com os dentes cerrados como alguém que mastiga o próprio grito, ela deu o seu primeiro golpe. Fez o mesmo movimento, no mesmo lugar, repetidas vezes.

Ela sentiu um suco quente espirrar e escorrer pelo seu rosto. Ela sentiu seus músculos do pescoço tremerem. Ela sentiu cansaço, dor, vazio.

Ela sentiu uma mão segurando a sua interrompendo aquela sequência de horror.

***

Hoje é dia de visita. Ramon, filho caçula de Rosário, vê a mãe chegar do outro lado do pátio.

Em uma das mãos, ela carrega uma vasilha, provavelmente, Rosário trouxe broa outra vez.

Ramon sorri não só pelo seu bolo favorito, mas por ver o rosto de sua mãe, finalmente, sem nenhuma marca de violência no rosto.

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