Sala de espera

Hoje foi um desses dias raros. Luiza deu uma última olhada no espelho e saiu tão confiante de casa que exerceu uma força gravitacional. Ela desceu do ônibus tão segura quanto aquelas mulheres nos comerciais de absorvente e se viu capaz de atrair todos os olhares para si.

Luiza, mais básica que azulejo branco, nunca gostou de ser o centro das atenções. Ela quer passar despercebida na multidão, ser mais uma entre os pares de perna que atravessam o sinal no centro lotado. No entanto, hoje, Luiza sentiu um sorriso de canto de boca escapar quando reparou os olhares interessados se voltarem a ela. E, assim, sorridente, chegou à sala de espera do dentista.

Inevitavelmente, antes de abordar a secretária, seu olhar se encontrou com outro. Ele teria sido mais uma vítima daquele campo magnético criado pela confiança de Luiza.  Diferente dos outros, o olhar daquele moreno de blusa branca penetrou toda sua timidez de um jeito tão sorrateiro que ela retribuiu com coragem. Não quis parecer tão ousada, mas o jeito que ela mexeu nos cabelos denunciou todo seu interesse.

Luiza preferiu sentar duas cadeiras de distância enquanto dedicava sua reza a todos os santos para não ser chamada antes dele.

Ela pegou o livro na bolsa. Mesmo amando ler Feliz Ano Velho, não conseguiria prestar atenção em duas sílabas. Ela abriu o livro na página marcada e os olhos dele continuavam ali, parados, reparando em cada detalhe. Ela fingiu se concentrar, mas uma risada escapuliu quando viu o pescoço do rapaz se entortar para ler o título da obra.

Enfim, ele quebrou o gelo e perguntou se ela já tinha lido Blecaute, outro livro assinado por Marcelo Rubens Paiva. Ele sorriu e se apresentou.

– Samuel.

Pronto! Ele é lindo, simpático e, pelo visto, adora ler. Internamente, Luiza pediu aquele par de olhos de jabuticaba em casamento.

Luiza é tão doce quanto a música de Tom e ele não conseguia esconder o seu interesse à primeira vista. Eles começaram a conversar e a confiança desse dia tão raro fez Luiza se esquecer da sua maior preocupação daquele momento: ser chamada antes dele.

Enquanto Samuel comentava do último lançamento de Woody Allen para impressionar, Luiza começou a se incomodar pela demora do dentista. Em um rápido pensamento positivo, quase um mantra, ela pensou que tudo poderia acontecer, menos ser chamada antes dele.

Os olhos de Luiza se dividiam entre o relógio e aquele cara. A menina não protagonizava mais um comercial feliz e, sim, um filme de ação. Disfarçando sua ansiedade com sorrisos relapsos, Luiza não entendeu uma só palavra do que ele dizia quando viu o dentista abrir a porta para chamar o próximo paciente.

Em questão de segundos, Luiza cogitava pegar as mãos de Samuel e sair correndo dali no melhor estilo calma-no-caminho-te-explico. Não, ela não queria ser chamada antes dele.

O pânico de Luiza foi tão evidente que Samuel se virou e um silêncio sepulcral fez ecoar o nome do próximo paciente.

– Rogério.

Luiza respirou fundo e se levantou.  Antes de entrar no consultório para, finalmente, ser atendida, ela encarou com a mesma confiança daquele dia tão raro todos os olhares confusos que se voltaram a ela.

Ela se virou. Samuel já não a olhava mais.

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