Boa noite

Uma das lembranças mais gostosas da infância de Lorena era o momento da caça aos ovos de Páscoa. Com 13 anos de idade, ela consegue se lembrar com exatidão do frio na barriga que sentia para achar todos antes do irmão mais velho.

Desde que ele morreu, há mais ou menos dois anos, as Páscoas e Natais perderam a cor.

Este não era um dia de Páscoa, mas Lorena precisava traçar uma triste caça ao tesouro.

Ao invés de frio na barriga, ela sente o coração apertado. Pelas lágrimas contidas e silenciosas, ela convida o pai a recolher todas as bebidas que, até então, estavam escondidas pela casa.

Não era uma brincadeira engraçada, mas inevitavelmente Lorena ouvia suas gargalhadas esquecidas no passado. Com o estômago embrulhado pela nostalgia, ela sente ânsia de vômito ao destampar as primeiras garrafas.

Ela despeja todo o líquido na pia da cozinha. O pai estava ali, completamente transtornado com mais duas garrafas na mão.

Ele as entrega com a cabeça baixa. Eles não se olham como se aquela distância fosse um pacto para deixar as cosias mais fáceis.

O pai envelheceu quinze anos desde a última Páscoa. A mesma saudade que Lorena sentia do irmão ela também sentia dele.

Sim, ela também envelheceu.

Lorena poupou o pai e ela mesma invadiu o quarto do irmão. Mesmo intacto e fechado, o quarto já não mantinha o cheiro dele. No entanto, aquele espaço se tornou seu atalho mais rápido para um passado feliz.

Era ali que Lorena entrava para fugir das brigas dos pais. Era como se atrás daquela porta tudo fosse como antes.

No quarto dele, o tempo parou.

Em pensamento, ela implorou para que não encontrasse nenhuma garrafa naquele espaço sagrado. Lá estava, no armário, embaixo das blusas dobradas e separadas por cor.

Em menos de meia hora, oito garrafas foram encontradas em todos os cômodos da casa.

Enfim, o pai, sentado no sofá, não conteve sua crise de choro.

Eles se abraçaram, ele pediu desculpa por compartilhar com ela, tão pequena, todo aquele sofrimento. Com um beijo na testa, ele encerra a conversa e liga a TV.

Eles estavam assistindo Os Simpsons quando a mãe finalmente chegou. Ela estava na sua primeira reunião do AA.

Lorena levantou do sofá em um pulo. Como se tivesse 10 anos de novo, carregava um sorriso largo e feliz por assistir o recomeço da sua própria história.

Contrastando com a felicidade que ela sentia no peito, Lorena e a mãe não trocaram uma só palavra. Bastou o abraço para Lorena sentir, de novo, o mesmo cheiro do álcool.

O pai desliga a TV e sem olhar para esposa segue para o quarto com um tímido e apático boa noite.

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