Caixa postal

Carolina gasta, em média, uma hora e meia para chegar ao trabalho e quase duas horas para chegar em casa. Praticamente, são quatro horas no ônibus, no trânsito, calor e tédio. No entanto, desde o seu primeiro encontro com Caio, Carol conversa com ele diariamente no ônibus. Um ano e meio de namoro e incontáveis horas conversando no celular todos os dias durante a volta de Carol para casa. Para ela não há falta de assunto. Ela sempre conta com entusiasmo o seu dia, como ela está se sentindo, quais são seus planos para o futuro. Tudo é decidido ali, no ônibus.

Aquele dia o ônibus atrasou e, quando chegou, estava lotado. Antes mesmo da parada no ponto, Carol tentou adivinhar onde a lotação pararia e travou uma guerra silenciosa com um casal de idosos que esperava ali. Carol entrou primeiro e sem nenhum pesar se sentou em uma das cadeiras especiais. Mal se acomodou e já tirou o celular da bolsa. Seus dedos treinados, ligaram para Caio em uma fração de segundos enquanto o casal da melhor idade ainda estava se sentando.

Chamou, chamou, chamou e ele não atendeu.

Mais uma vez ela tentou, mais outra e nada.

Carol ficou tão obcecada que travou uma disputa com a voz da caixa postal. Seu jogo era ligar repetidas vezes antes da maldita voz eletrônica atender.

Carol ligou até cansar. Foram cinco minutos similares a dez horas. Em paralelo, o ônibus estava na mesma avenida. Enfurecida pelo tédio eminente, Carol começou a fantasiar os motivos que fizeram Caio ignorar suas tradicionais chamadas das 18h30.

Do mais provável “ele está ocupado” ao fantasioso “ele está me traindo porque está cansado de mim”, Carol pinta o cenário perfeito para uma briga digna de roteiro de cinema.

Ela imagina que eles estão na casa de seus pais, ela pega seu celular e encontra mensagens comprometedoras.

Carol mergulha na briga inventada e cria as mensagens, a amante, a reação de Caio. Por mais fantasiada que fosse a discussão e o momento do flagrante, sentimentos reais brotam do peito dela. Ela se sente traída de verdade. Imediatamente, os sentimentos fervilhantes começam a escapar pelos lábios de Carol. Então, ela balbucia respostas, como se estivesse ensaiando para um ataque.

Em seguida, seus gestos contidos se transformam em ameaça. Carol está completamente transtornada por uma briga que nem aconteceu.

Subitamente, lágrimas rascunham um choro sofrido. Na encenação doentia de Carol, Caio pedia desculpas. Ela, irredutível, não aceitou.

Então, toca o telefone.

Não era Caio e, sim, um número desconhecido.

Era a Tim oferecendo, mais uma vez, seu pacote promocional de internet.

Com cortesia, Carol desliga na cara do atendente. Ao seu lado, o casal de idosos estavam abraçados.

Enquanto ele fazia carinho no braço da senhorinha, ela dava um cheiro no seu pescoço. Eles riam feito adolescentes.

Para Carol, aquela cena parecia o final de um felizes-para-sempre de uma comédia romântica qualquer. Ela observou o namoro senil como quem admira uma fotografia antiga, quase uma relíquia.

Dali, Carol esqueceu a traição inventada de Caio, suas 46 chamadas ignoradas, tudo. Carol queria um conto de fadas assim. Enquanto digitava uma mensagem de amor para seu futuro marido e pai de seus três filhos, ela observou o senhor descer, deixando a senhora para trás.

Na mão esquerda dele, uma aliança brilhava, na mão esquerda dela, nada.

Chocada com a descoberta e certa de que nenhum homem vale nem a meia entrada do cinema, Carol termina com Caio por SMS.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s