Infiltração

Deitada na maca esperando atendimento, Michele tentava agir com naturalidade. Vinham tantas imagens e pensamentos à sua cabeça que ela tentou silenciar todos com sua respiração.

Inspira, expira.

Ansiosa por essência, ela já tinha contado e dividido por três todas as pastilhas de vidro que fazia um mosaico exótico na parede direita. Desde pequena, ela soma os números e divide por três. Se der certo, é sinal de sorte, se der errado, é premissa de que algo ruim está preste a acontecer.

120 pastilhas.

Licenciada pelo sucesso da sua simpatia inventada, Michele conseguiu, por alguns segundos, relaxar.

Inspira, expira.

Ela tenta fechar os olhos numa tentativa frustrada de cochilar. Eram lembranças barulhentas demais para cogitar pegar no sono. Com os olhos abertos, ela repara o teto branco. A infiltração tímida bem ali no canto fez Michele viajar sem escala para um dos primeiros retratos da sua infância.

Ela tinha quatro anos quando a avó lhe contou que todo aquele lodo impregnado nas tralhas daquele grande quintal eram cidades minúsculas de bichinhos microscópicos. Michele ficou obcecada, fantasiando pequenos monstros, o reino lodoso, as batalhas e a saga para libertar a pequena princesa. Ela e a avó se divertiam criando um conto de fadas bem próximo à realidade das duas.

O Era Uma Vez teve um ponto final quando Michele, ainda aos 12 anos, se despediu dela pela última vez. Tudo era mais fácil quando Michele tinha a avó como cúmplice. Dali em diante, ela seguia sozinha.

Lembrar da infância roubou quase cinco minutos da espera angustiante. No entanto, pensar na avó fez Michele se sentir segura. Depois de anos, ela se permitiu recriar a história da colônia imaginária. Contrariando a tudo que sentia, Michele conseguiu sorrir.

Uma mulher entrou no quarto e ficou surpresa pela sua felicidade contida. No entanto, Michele não sorria mais. A presença daquela mulher de branco a fez lembrar porque estava ali, deitada. Seus olhos pareciam saltar e sua respiração perdeu o ritmo.

Inspira, expira.

A moça pede para Michele relaxar.

Ela se concentrou tanto que conseguiu, finalmente, ouvir um só coração batendo dentro dela.

Seu corpo estava em luto.

E ela sentia alívio por não dar a ninguém um futuro como seu passado foi naquele imenso quintal.

Mais uma vez, Michele estava pronta para seguir sozinha.

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