No viaduto

Enquanto sua sombra era multiplicada pelos postes, Carmem andava sozinha pela noite vazia, despreocupada com um ou outro carro que invadia o silêncio daquela madrugada. O preto do céu era uma sentença. Nem a lua e o medo estavam ali para testemunhar o que estava prestes a fazer.

Medo?

Fazia tempo que seus sentimentos se restringiam ao frio ou fome.

Vazia no peito e esquecida pela ignorância, ela encontrou o que buscava naquela caminhada solitária. O viaduto era uma carta de alforria.

A pista inferior se transformou em um rio com correnteza brava. Carmem poderia ouvir o ritmo das águas selvagens batendo nas pedras. Pela primeira vez em anos, uma liberdade sombria invadiu seus pulmões.

Sentada na muralha de proteção, finalmente, ela enfrenta o céu.

Em silêncio, suas lembranças saem pelos seus poros. Carmem se lembra dos filhos, da mãe, do seu primeiro marido, do primeiro emprego e daquela fagulha de esperança em ter uma vida melhor.

Será que seus filhos ainda se lembram dela ou a ignoram como todas as outras pessoas?

Com vergonha da noite e se sentindo indigna de qualquer intervenção divina, Carmem olha para o penhasco certa da sua decisão. Suas lágrimas corajosas enfrentam o salto rumo ao nada. Confusa, ela se levanta, respira fundo e, de novo, escuta a correnteza das águas imaginárias. Com os olhos fechados, ergue os braços como um pássaro preste a voar.

Um, dois e…

Pausa.

Ignorada até mesmo pela sua própria coragem, ela não conseguiu.

Carmem ensaia o pulo por mais duas vezes. Nada. Ninguém estava ali para assistir à desistência, da mesma forma que ninguém estava ali para impedi-la.

O peso do fracasso a derruba para o lado oposto.

Do lado de cá do viaduto, caída no asfalto, ela não tem outra opção senão olhar para o céu. De novo, os filhos invadem suas lembranças. Naquela imensidão escura, ela se sente sozinha.

Uma buzina silencia seus pensamentos em uma das raras vezes em que ela é notada. Por um triz, o acaso a presenteia com a morte.

Então, ela se levanta e segue pelo mesmo caminho que a trouxe ali. As pistas não eram mais correntezas, eram rios secos.

Embaixo do viaduto, Carmem ascende, de novo, a coragem de morrer.

Pelo seu cachimbo, ela esvaziou seu peito e se via pronta para sentir apenas frio e fome à espera da morte.

 

Foto de Eduardo Vessoni

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