Olhos vazios

Por mais que Alice relutasse, ela devia esta visita à Milu. Aconteceu exatamente como ela esperava, o choro contínuo começou antes mesmo dela entrar na sala de espera. Ainda do lado de fora, ela a viu ali, deitada. Mesmo sonolenta, não dormia, Milu esperava por aquele encontro.

Alice se sentou ao lado da cama e sorriu como se estivesse tudo bem. Elas se olharam e assinaram um pacto em silêncio: se você estiver em paz, estarei em paz também.  Um pacto embalado por uma despedida mórbida, uma certeza esquisita de última vez.

Milu estava apática, era quase uma página em branco, mas trazia em seus olhos uma doçura tão típica, um olhar inocente, quase angelical. Um crime assistir de perto o esvaziar destes olhos que por tantas vezes foram seus confidentes.

Alice carregava uma culpa que não tinha, uma culpa só dela.

Elas se conheceram na infância. Era um desses verões em que as crianças ficam trancafiadas em apartamentos sentindo no rosto o sopro dos ventiladores.

Alice e Milu selaram uma amizade instantânea, dessas que só as crianças conseguem.

Eram melhores amigas, depois irmãs e, naquele momento, com uma maturidade precoce, talvez a relação seja de mãe e filha. Assim era o amor infinito compartilhado por elas.

Quando Milu adoeceu, elas estavam de malas prontas para viajar. Os pais insistiam para que a filha fosse e Alice obedeceu. Ela sabia que poderia ser grave, mas não queria passar mais um verão em casa. Milu entenderia.

Sim, ela entendeu.

E esperou Alice chegar de viagem para, finalmente, se despedirem.

Por não poder culpar alguém, Alice sentiu raiva dos pais pela insistência, raiva dela mesma pelo egoísmo e raiva de Milu por não ser eterna como aquele amor que sentiam uma pela outra.

Ela, que só conhece a morte pelos filmes e novelas, sentia o gosto amargo daquele adeus.

O silêncio criou um penhasco entre as duas e se dependesse de Alice era ela quem cairia ali.  Talvez essa tenha sido a única vez em que a dupla permanece juntas e em silêncio.

Enfim, a hora chegou. Alice pega Milu no colo e tira da bolsa o seu biscoitinho preferido. Nenhum latido, nem lambidas, era só o eco das lembranças.

Quando percebe que Milu se recusa a comer, ela desmorona, sabe que sua melhor amiga não está mais ali.

Como se pedisse perdão, Alice a embala como um bebê e assiste aos seus olhinhos se esvaziarem em um último suspiro de cumplicidade.

Alie rompe o silêncio e traduz em palavras o que Milu já tinha entendido.

– Se você estiver em paz, estarei também.

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