Palco aberto

Com a benção da lua cheia, Virginia se inspira para mais um espetáculo.

Coloca o figurino, aquece a voz e, minutos antes de entrar em cena, deseja sorte. Ela não acredita em Deus e, nem por isso, deixou de ter fé, esperança em dias melhores, esperança em si e, principalmente, nas pessoas.

Um otimismo esquisito que só as pessoas de olhos brilhantes têm.

Além da autoria do texto e direção, aquela seria a estreia da sua coragem. Virgínia estava pronta para dar voz às suas dores.

Ela feche os olhos e se concentra tanto que mal ouve as três campainhas.

Ela encara as pessoas da plateia. Em segundos, tenta entender o porquê de estarem ali. O que motivam estas pessoas? O que elas escondem por baixo daquela lua cheia?

Agora, ela era uma personagem sem nome como tantos outros que já passaram por aquele mesmo palco.

Na primeira cena, Virginia declama versos de um poema mudo. Seu corpo refletia uma dança como um estomago retorcido de fome.

Enfim, desabafa:

 

Me perdoem se causei azia

Mas as lágrimas têm um salgado amargo

Um amargo bom

Amargo do que passou e salgado do que virá

Salgado do que mata fome

De doce só o sorriso amarelo

Uma sobremesa entre uma azia e outra

 

Alguns da plateia se incomodam, outros assistem com ansiedade. Arte contemporânea?

Suas palavras parecem enfeitiçar cada um dos ouvintes. Como se os holofotes estivessem na plateia, Virgínia se desloca da atriz e observa como uma espectadora passiva a reação daquelas pessoas.

Os olhares atentos preenchem de cor aquele eco sombrio do teatro a céu aberto.

Alguns riem, outros se emocionam, mas todos ali ouvem com atenção o que aquela mulher diz. Estariam naquele lugar para assisti-la?

Virginia mantem sua atuação, mesmo com uma vaidade simplista. Ela era a estrela, mas negaria a qualquer um que perguntasse nas esquinas.

Enfim, ao se erguer para o agradecimento daquela generosa plateia, seu coração se aquece com tantos aplausos.

Feliz por ter protagonizado não só aqueles quarenta minutos de cena na praça, mas por um dos raros momentos em que um morador de rua é notado.

Por não passar desapercebida, Virginia não dormiu com fome, tampouco azia, dormiu com uma esperança estranha de dias melhores.

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