Ela partiu

Clara se trancou no quarto, tirou a mala empoeirada de cima do guarda-roupa. Respirou fundo e viu naquele retângulo vazio e aberto todas as suas incertezas. Ela não estava pronta para partir, mudar e recomeçar, mas estava certa de que nunca estaria.

Clara também não estava preparada para ficar.

Em menos de dois minutos, conseguiu colocar todas as roupas na cama e constatou o óbvio: não precisava de muito. Dobrou cada peça com cuidado, como se as blusas, vestidos e calças tivessem uma história para contar. E tinham.

Aquele casaco marrom, pesado, perfeito para um inverno que nunca viveu, era de seu pai. Para Clara, servia como uma capa superprotetora. Era o jeito que ela encontrou de ter o velho por perto mesmo quando ele estiver longe.

Como é neste dia.

Sozinha no quarto, ela não precisou esconder o choro de saudade.

Certamente, seu pai se sentiria orgulhoso dela naquele momento.

As lembranças fizeram com que Clara se sentisse, de novo, aos doze anos de idade, quando encarou a bagagem do pai no corredor entre a sala e cozinha. Naquele tempo, ela enfrentou a separação dos pais com muita raiva da mãe por expulsar de casa aquele que era o melhor homem que ela conhecia.

Agora, adulta, Clara confessa em silêncio: nunca perdoou a mãe até o dia de hoje.

Em um choro compulsivo, a mulher tira da mala o casaco marrom. Ela precisava se sentir segura de novo. Mesmo com o calor típico das noites de verão, ela o coloca e é acolhida pelas lembranças.

Fecha a mala e se levanta. No espelho, confronta seus hematomas. Dessa vez, não fez questão nenhuma de esconder. Hoje não.

Sua figura no espelho silencia seu choro. Clara se aproxima e toca seu rosto, como se seus dedos tivessem o poder de cura. E tinham.

Enquanto ela se examina com perplexidade, uma batida delicada na porta interrompe seus pensamentos.

Era Luiz. Ele queria entrar.

Clara olha para sua bagagem fechada, abotoa seu casaco e se senta na cama.

Ele bate de novo, pede desculpa e chora.

Imediatamente, Clara reascende seu choro interrompido. Enquanto ele insiste para entrar, ela desiste de ligar para o pai.

Com o telefone nas mãos, disca 180.

Finalmente, ela estava pronta.

 

Nota: Essa certamente é uma história real. Em briga de marido e mulher, é preciso de meter a colher sim. Disque 180 para denunciar uma agressão contra a mulher.

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