O último reflexo

Com as mãos apoiadas na pia, ela se encara no espelho. Na madrugada vazia, coberta pela insônia, ela silencia seus pensamentos diante daquela figura refletida. Obcecada pelo seu contrário, ela mira para pinta de nascença, ali, do lado esquerdo.

Seus dedos percorrem pelo rosto como se fosse possível ler em suas rugas as histórias esquecidas. Para ela, as marcas da pele desenham um rascunho da sua própria vida.

Quem era aquela mulher que a encarava de frente?

Seus dedos alisam os lábios ressacados, uma boca que já se esqueceu o calor de outro par. Em seguida, suas mãos fazem uma concha para abrigar toda a água que gritava pela torneira. Ela lava o rosto, enxuga e se olha.

Era ela mesma quem estava ali.

Como se sentisse saudade de si e pudesse matar tal sentimento naquele instante refletido, ela sorri. Suas mãos um tanto trêmulas enroscam os cabelos compridos e grisalhos em um coque. Ela se pinta e preenche de cor o espelho.

Ela se colore de esperança.

Apaga a luz e, com dificuldade, chega até a cama, acende o abajur e se deita. Arruma a camisola com cuidado, fecha os olhos e respira fundo.

Daquele sono, ela nunca mais acordou.

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