Cadeira vazia

Sentada, Clarice via o tempo passar sem a pretensão de apressar os ponteiros. Ela observava os detalhes daquele portão cinza e as ferrugens que devoravam pouco a pouco suas bordas.

Clarice parecia não pertencer ao cenário. Sua tranquilidade contrapunha aos corações acelerados das pessoas ao seu redor. Os caminhares apressados invadiam o campo de visão dela vez ou outra, como se Clarice fosse uma cadeira vazia daquela varanda.

Com dificuldade, ela ouvia uma música que, de tão baixa, a mulher não sabia se vinha das caixas de som ou da sua rádio mental. Não importava. Ela balbuciava o ritmo que acalentava aquela espera sem sentido.

O portão cinza se abriu e a imagem da rua movimentada escapou por ali. Um homem entrou. Clarice observou com cuidado os olhos escondidos pelos óculos escuros. Ele a encarou como se fosse a única pessoa capaz de vê-a.

Clarice não o conhecia, mas ficou encantada por aquele sorriso. Ele lembrava um ator de algum filme que ela viu em uma tarde de domingo qualquer. Ela inclinou o rosto para tentar ler o que seus lábios diziam a uma outra mulher, mas a música de fundo embaralhava sua atenção. Ele a encarou de novo, pareciam falar sobre ela.

Clarice se deleitou com a hipótese de ser assunto de alguém.

A curiosidade foi autora de vários pensamentos que roubaram sua calmaria. Pouco importa, Clarice queria mesmo alguma coisa para se lembrar antes de dormir.

Ela observou detalhes do moço, sua roupa, os óculos agora pendurados na gola da blusa, a barba por fazer.

Ele se despediu da outra mulher e seguiu para sua direção. Ele sorriu com os olhos. Sorriu pra ela e por ela. Clarice se apaixonou por todas as entrelinhas daquele encontrou que estava prestes a acontecer.

No entanto, era uma paixão esquisita. Não era a carne que se entregava ao rapaz desconhecido, era o coração dela. Não era desejo, era amor.

Ele se aproximava em passos largos,

Clarice deixou de ouvir a música para ouvir suas batidas espaçadas daquele sentimento tranquilo, quase angelical. Ele a olhou tão profundamente que foi capaz de preencher aquela cadeira de significado.

Em seu sorriso, duas palavras.

– Oi, mãe!

Não era só amor, era saudade daquele filho que ela quase esqueceu.

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