Do embaço

Era um desses dias estranhos, quando o sol e a chuva não decidem seu lugar. Samara não sabia se usava meia calça e bota ou se arriscava uma sandália aberta. Naquele momento, entre o espelho embaçado e sua cara lavada, esse era o único problema dela.

Decidida pela sandália e saia, Samara abre a porta do banheiro como quem recupera o fôlego. Ela se tranca no quarto e se depara com quatro chamadas não atendidas. Confusa, não sabia se retornava ou se secava os cabelos que estavam inundando aquele lugar. Seus cinco segundos de dúvida foram interrompidos pela quinta chamada. Dessa vez ela atendeu. Do outro lado da linha, estava quem ela tanto planejou estar, Saulo. Ele anunciou sua chegada em dez minutos e, antes mesmo dele desligar, Samara começava a se vestir.

Enquanto lutava contra os ponteiros, seu coração era uma fábrica de expectativas. Da base ao batom, ela rememorava cada detalhe do último encontro, do primeiro beijo na porta de casa, das mensagens, do frio na barriga que sentiu quando pensou nele.

Saulo chegou. Ela desce as escadas desafiando a velocidade do elevador e controlando a dúvida se beija na bochecha ou se vai direto ao ponto. Ele abre a porta do carro, eles se olham, o sorriso dela molha um tímido oi e ele desfaz qualquer incerteza com um beijo no lugar certo.

Depois do cinema, pizza, vinho e uma incontrolável certeza de que aquele cara seria seu futuro namorado, eles entram no carro. No caminho de volta, Saulo sugere que passem a noite juntos. Samara desconversa. Mesmo pensando como seria o rosto dos filhos, ela prefere esperar. Aquele era o segundo encontro… melhor não.

Ele insiste com a mão na perna dela prestes a fazer uma expedição. Ela recusa de forma delicada, quase um convite para o próximo encontro. Imediatamente, Saulo concentra as duas mãos no volante.

Ele parecia não estar disposto a perder a viagem.

Samara fica sem graça e tenta quebrar o gelo com o calor de um assunto ameno. Saulo responde com um silêncio quase ameaçador.

Ele dobra o carro em uma esquina, ela estranha o caminho.

Ele para o carro, ela se desorienta.

Ele tranca as portas, ela se assusta.

No escuro daquela rua deserta, os planos dela se apagaram. Seus gritos não conseguiram ultrapassar a barreira do medo.

Silêncio.

Os vidros se embaçam de choro e gozo. Presa pelas mãos de um falso abraço, Samara se desprendeu de si.

Pausa.

Na manhã seguinte, depois do banho, entre o espelho embaçado e sua cara marcada, Samara não conseguia se limpar de uma culpa que não era dela.

Obscureceu-se em dor.

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