Dois pra lá, dois pra cá

Júlia estava sentada no sofá do salão esperando sua vez. Ela não queria estar ali entre escovas, secadores, revistas e dúvidas, muitas dúvidas. A menina não entendia os sorrisos gratuitos e a comoção compartilhada por aquelas pessoas que ela mal conhecia.

Naquela noite, seria sua festa de 15 anos, no entanto, para ela, seria um teatro similar ao que fez no palco da escola quando era Cinderela aos seis anos de idade.

Ela se sentou em frente ao espelho e, enquanto ouvia a mãe dar as coordenadas para a profissional, fechou os olhos numa tentativa de fuga. Júlia já não estava mais ali.  Não era dela aquele reflexo.

Enquanto seus cabelos eram tocados, a debutante recorreu às memórias do ontem para se abrigar. Ela fez do seu passado recente um lugar feliz.

Na noite passada, ela ganhou o primeiro beijo de presente. Com o gosto de notícia boa, seus lábios sentiram o calor de um frio na barriga.

Embrulhada pelos sentimentos sem nome, Júlia deixou um sorriso de canto escapar. Inevitavelmente, seus traços felizes acalmaram o coração da mãe que observava a filha se transformar, aos poucos, em princesa de livro infantil.

Agora, com os olhos abertos, sua memória se calou. De cabelo armado e maquiagem, Júlia não se reconheceu. Ainda bem. Definitivamente, a menina não queria ser ela mesma naquela noite.

Aos poucos, os convidados chegam, enchem o salão e esvaziam as esperanças de Júlia em reencontrar seu presente. Incomodada pelo vestido e salto, a menina prefere distribuir olhares e cumprimentos logo ali, do canto, enquanto é perseguida pelo fotógrafo.

O relógio sentenciou a meia-noite. Enquanto a família se preparava para a valsa, Júlia reconheceu aquele olhar entre tantos outros. A expectativa do segundo beijo coloriu aquele momento que, até então, era tão importante para todos, menos para ela.

Os passos precisos do pai disfarçavam a distração de Júlia, tão concentrada no reencontro.  Emocionado e sem se dar conta, ele abençoa os sentimentos da filha com um beijo na testa.

Júlia ignora seu primo, quem seria seu próximo par para aquela valsa ensaiada.

Não era com ele que a menina queria dançar.

A debutante penetra a roda de convidados que assistem perplexos ao improviso da menina. Entre olhares confusos e suas batidas aceleradas, Júlia estende a mão para Fernanda.

Era com ela.

De mãos dadas e escoltadas pelos cochichos alheios, as duas partiram para o centro da roda. As meninas não sabiam dançar valsa, mas seguiram o ritmo dos seus sentimentos.

Dois pra lá, dois pra cá.

Ali, estavam somente Júlia e seu primeiro beijo.

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