No quintal da memória

A chuva colocou à prova os planos de Thais. Tudo que ela mais queria era se entregar ao sofá depois de um dia cheio no escritório. No entanto, nada está tão ruim que não possa piorar.

Com as sapatilhas afogadas em uma poça sem o aconchego de um guarda-chuva, ela se viu refém daquele chuveiro celestial a dois quarteirões do trabalho.

Thaís se sentiu invadida pelas gotas que percorriam lugares inimagináveis. Imóvel, a mulher assistia à chuva derreter seus pensamentos. Pela correnteza derramada nos bueiros, ela navegou pelas suas fotografias antigas.

Quando menina, Thais corria para o jardim em dias de chuva escondida da mãe. Enquanto as gotas penteavam seus cachos, ela abria os braços e rodava. Com os olhos fechados, ela fazia um pedido e a água plantaria na terra o seu desejo.

Flutuando pelas lembranças e prestes a fazer sua rogativa, um grito parte da esquina e tira Thaís do seu quintal da memória. Embaixo de uma marquise, um homem acenava.

Embaraçada pelo flagrante, ela seguiu em direção ao abrigo.

Quando se aproximou, a mulher se surpreende.  A chuva teria realizado seu desejo antes mesmo do ponto final. Aquele cara parecia ser bem mais interessante que seus planos iniciais de misto-quente e TV.

Enquanto ele reclama da chuva, ela agradece pela gentileza de ceder um lugar naquela marquise tão pequena. Entre sorrisos amigáveis e comentários regados ao bom-humor, eles se apresentam e cumprem toda a pauta de um tradicional papo de elevador. O homem fala sobre amenidades e ela não consegue disfarçar sua curiosidade pelos mínimos detalhes da vida dele.

Ela comenta sobre a infância. Ele fala sobre a estreia de um seriado. Eles transformam aquele pequeno espaço coberto em um primeiro encontro.

Então, a chuva desistiu e, enfim, secou.

No momento em que ela criava coragem para dar seu telefone, ele sorri para o outro lado da esquina.

Um par de pernas embrulhada em uma meia-calça chega e beija o homem na boca. Como uma amante traída, Thaís testemunha o encontro. Seu olhar nadava em busca de uma explicação para aquela traição que só existia na cabeça dela.

Ela reconhece os traços familiares daquela mulher, traços de quem ela vê diariamente.

O casal se desvencilha do abraço, Thais sorri para sua colega de trabalho e finaliza aquele desconforto com um até logo e muito prazer.

Molhada da cabeça aos pés, ela recebe um carinho gelado do vento. Ele sopra em seus ouvidos um decreto: chuva não realiza desejo. É tudo mentira da infância.

 

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