Positivo

Letícia se levantou cedo para levar aquela agulhada que resolveria, de vez, sua dúvida. Na sala de espera do laboratório, ela não fazia a menor ideia de como seria sua vida a partir daquele positivo. Ansiosa, ela sabia que aquelas horas não passariam tão rápido como gostaria. Enquanto espera, os sintomas de uma possibilidade davam ainda mais certeza do resultado daquele exame.

Do outro lado da cidade, Raquel compartilha da mesma angústia do talvez. Diferente de Letícia, ela não quis compartilhar com ninguém as suas hipóteses. Sozinha, ela mastiga suas dúvidas em um sorriso amarelo quando perguntam no trabalho se está tudo bem.

O resultado sai às 15h45 e os minutos pareciam brincar com a espera das meninas.

Letícia troca mensagens com as amigas. As mãos trêmulas estremeciam sua lucidez. Letícia não queria esperar, ela já tinha certeza.

Raquel perdeu a fome. Enjoada, trocou o almoço por um suco. Ela se sentou na praça perto do escritório. Embalada pela caminhada de pessoas desconhecidas, Raquel tira da bolsa um maço de cigarro e encarou por alguns minutos aquela figura horrível que estampa o verso da caixa. Era um feto. Seu estômago não conseguiu digerir tantos sentimentos. Embrulhada pela própria ânsia, Raquel se despede daquele vício e joga quase todos os cigarros fora na lixeira ao lado. Ela mantém um. Apenas um cigarro voltou para a sua bolsa. A mulher estava disposta a se cuidar seja qual for o resultado.

Letícia não conseguia disfarçar o entusiasmo. Seu sorriso ganhava todas as cores quando alguém perguntava se estava tudo bem. Bem está, melhor vai ficar nas próximas horas. Ela estampava a ansiedade do quase.

Os ponteiros anunciam 15h30.

Os olhos de Raquel correm para o relógio marcado no monitor. Ela abre o site do laboratório. Na capa, um banner animado com pessoas felizes, sorrisos plásticos que contrastam com o olhar angustiante dela. Ela respira e clica em “Resultado de exames”.

Letícia encara o relógio do celular. Com o aparelho em mãos, digita o site do laboratório. Procura na bolsa sua senha e treme ao digitar aqueles caracteres embaralhados. Ela abre o resultado e se depara com um número tão insignificante quanto seus planos de hoje: negativo.  Letícia não estava grávida. O choro contido de uma expectativa frustrada pareceu tão dolorido como um aborto.

Em paralelo, os olhos cheios d’água de Raquel refletem uma palavra: positivo.

Anestesiada, Raquel pegou na bolsa aquele seu último cigarro. Entre um trago e outro, mergulhada no seu silêncio, seus pensamentos berravam. Ela precisa compartilhar. Ela precisa assumir, ou não? Como vai contar? Como ela vai se olhar no espelho e não se culpar? Como ela não vai se sentir uma bomba relógio? Que se danem os relógios.

Raquel desliga o computador e sai do escritório sem conversar com ninguém. Calada, no ponto de ônibus, ela se sente observada como se todo mundo já soubesse o resultado daquele exame. Naquele momento, a cidade se calou. Raquel silenciou todos seus pensamentos em um só. Dali em diante, ela não fazia a menor ideia de como será sua vida sendo soropositivo.

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