Teia

Frio.

Daria tudo pra continuar dormindo. Respira. Calma. Respira fundo e sorri. Ele não viu. Sorri de novo. Pronto. Olhos fechados. Não. De olhos fechados você dorme. Relaxa. Respira mais fundo. Olhos bem abertos.

Sono.

Amanhã não posso esquecer de pagar a Renner e fazer o depósito. Preciso ver quantos meses faltam. Acho que três. Daí consigo fazer academia. Aliás, consigo pagar. Apenas pagar. Duvido que eu vá mais de um dia. Não. Vou tentar. Não dá pra começar nada com esse pensamento. Academia pra quem? Odeio academia. Aí. Podia parar de pensar um pouquinho e relaxar. Não feche os malditos olhos. Vai. Sorri. Respira fundo. Mais fundo. Para de pensar. Se eu continuar narrando cada movimento não relaxo nunca. Ok. Tudo bem. Tá acabando. Ai. Não tá acabando.

Aflição.

Deus! Uma aranha. Enorme. É uma teia ali. Aquela outra mancha deve…ser…um…mosquito! Que nojo. Ele deve tá agonizando há horas. É assim que elas fazem, prendem e mantém. Se alimentam de agonia. Como ele. A minha agonia excita. Respira. Sorri. Olhos abertos, bem abertos. Não dorme. Acabou.

Fim.

Otávio escorrega pelo corpo de Juliana e se deita ao lado da cama. Eles não se olham e não se falam, mas o silêncio das ações dela denuncia o diálogo entorpecente entre seus botões e seus pensamentos. Juliana se via naquela mesma teia. Incapaz de sentir e imóvel diante das próprias vontades. Vontade de quê? Desde que casaram, sua vida seguia no piloto automático. Encarando o teto vazio e aquela quina costurada pela teia, seus olhos permaneciam abertos penetrando a madrugada fria. Enquanto o gozo ninou Otávio, Juliana enfrentava uma insônia decisiva. Ali estavam apenas ela, a aranha e o mosquito.

Silêncio.

Antes que as lágrimas interrompessem o sono dele, ela se levanta. Diante do espelho no banheiro, ela se reconhece. Aquele choro a fez viva, de novo. Com as mãos escoradas na parede, iluminando sua escuridão, ela pega uma vassoura. De volta, observa a respiração carregada de Otávio dançar pelas cobertas. Ela agarra aquele cabo e se posiciona. Sem fazer muito barulho, tira de vez a maldita teia. Dali, na agonia, só resta ela mesma.

Solidão.

 

Imagem – Jenny  Terasaki

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