Estanca

Era sábado, domingo ou segunda-feira. Não importava. Para Jéssica todos os dias eram iguais e aquele seria mais um. Ela se levantou indisposta com um abraço do sol. No seu quarto, não tinha cortina e nem lençol capazes de bloquear a entrada daqueles raios escaldantes. A menina ouve a mãe conversar com o irmão enquanto arrastava seu chinelo de dedo pelo corredor. Do quarto ao banheiro são quase cinco passos, mas, para ela, pareciam quilômetros.

Do banheiro, ela responde à mãe com uma malcriação típica dos adolescentes. Lava o rosto e escova os dentes. Seu corpo parecia oco por dentro, uma sensação estranha daquelas que passam despercebida em menos de dez segundos. Ela vai até a cozinha, pega um copo de café e se senta ao lado da mãe com um bebê no colo. Afogado entre os seios suculentos de leite, o irmão mira seus olhos de jabuticaba para a menina. Tudo que ela queria era  voltar no tempo quando tinha menos de seis quilos de vida, como ele é, um pacotinho de incertezas.

A mulher aponta a caixa de bala para Jéssica com a cabeça. Não. Hoje, ela não quer trabalhar. A menina encosta em um dos ombros da mãe como se ainda pudesse ser ninada por ela. Elas se olham e a menina recebe um beijo na testa desses que só as mães sabem dar para medir a temperatura.

Desde que largou a escola, talvez aquele tenha sido o único dia em que a menina não dobrou a esquina para conquistar meia dúzia de moedas. A mãe não se incomodou, entregou o menino, prendeu o cabelo, abraçou a caixa de bala, pegou a pochete e saiu. Enquanto desenroscava a tranca improvisada do barracão, deu todas as recomendações para a menina. Entre elas, era o repouso.

Com o irmãozinho no colo, Jéssica ficou hipnotizada pelas possibilidades de passar uma manhã sozinha em casa. Não. Não teve tempo. Uma dor repentina corroía sua barriga vazia. Seu sangue parecia correr na velocidade máxima das tempestades. Sua respiração escorria pelas quinas da parede. Seu coração voou.

Suando frio, ela deixa o menino ao lado no sofá. Enquanto ele ri descobrindo suas mãozinhas, ela espreme os olhos como se quisesse expulsar aquele mal pelas lágrimas. De repente, seu corpo gelado sente um calor molhado entre as pernas. Todo aquele terremoto começava a se acalmar.

Ela abre os olhos lentamente e sente, aos poucos, todos os seus órgãos voltando ao seu lugar. Uma dor fininha e infinita costurava seu ventre e ela se viu ali, recém-mulher refletida pelo vermelho amarronzado no short do pijama. As responsabilidades vieram muito cedo para a menina, mas aquela maturidade ela ainda não sabia como estancar.

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