Indigestão

Marina olhou de rabo de olho e checou no espelho do elevador se estava tudo em ordem. Era um daqueles dias em que ela se achava bonita. O cabelo acordou de bom humor e o sorriso parecia mais iluminado do que ontem. Culpa das borboletas na barriga que, até então, não tinham lhe dado azia.

Era a primeira vez dela com a família inteira do namorado novo. Com a presença do tio distante e primos de segundo grau, Marina tinha certeza que aquele namoro era pra valer. Feliz, ela fincou os saltos no tapetinho de boas-vindas. Dali, com a cara na porta, mirando aquele olho mágico cego, ela já sentia o cheiro do jantar.

Marina entra e enfrenta aquela saia cheia. Parecia natal.

Entre abraços amarelados e apertos de coração, ela viu um olhar pousar sobre ela. Marina reconheceria aquele rosto daqui a 100 anos. Era ele.

Hipnotizada por aqueles olhos por trás dos óculos, a mulher não disfarçou seu embaraço. Do namorado novo ela nem se lembraria mais, estava obcecada em saber o que ele fazia por lá. Na dança das cadeiras da sala de jantar, Marina se sentou cara a cara com seu passado.

Os olhos fixos dele pareciam falar. No entanto, eles não trocaram uma só palavra.

Os pensamentos dela engoliram aquele silêncio. Dentro do peito, os diálogos fervilhavam. Das conversas que nunca acabaram, os pontos finais se transformaram em reticências. Ele estava lá, parado no tempo.

Pelo sorriso apagado, ela justificou dor de cabeça. A presença dele trouxe memórias indigestas. Cheiros e sabores que ela nem se lembrava de que nunca esqueceu.

Naquela sala cheia de olhares e gargalhadas vazias, estavam apenas ela e ele. Marina não se distrai e entra naquele mesmo jogo de fixação. Sem ao menos piscar, sua presença se limita às respostas monossilábicas.

– Ei, Marina! O que tanto olha pra foto?

Ele responde com um silêncio ensurdecedor. Ela se assusta.

Enquanto a mão do namorado trançada em seus dedos esquenta suas coxas, um sorriso escapa pela sua consciência.

– Nada. Achei que fosse alguém que conhecia.

Da interrogação, fez a pausa. Ele permanecia ali com seu olhar emoldurado.

Depois da sobremesa, Marina se despediu das pessoas que nem conheceu e deixou, na estante, suas memórias paralisadas em uma fotografia.

Ainda bem que ninguém ouviu o que aquele retrato falava.

 

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