Fuga

Paula digita rapidamente enquanto coloca um dos braços na jaqueta. A manobra era necessária. A menina tem pressa e ainda precisa definir os últimos detalhes daquele encontro. Do outro lado da tela, em um contraste cruel, Joel responde com calma.

Pela fechadura, Paula observa a mãe prestes a sair.

Um grito de despedida atrás da porta com a sinfonia da tranca era a música que a menina queria ouvir. Ela está sozinha em casa. Enquanto calça o tênis, Paula sente suas mãos suarem tanto pela mentira quanto pelo momento que estava prestes a acontecer.

Da janela, vê sua mãe desaparecer pela esquina.

Ela pendura a mochila, abre a porta e sai. Enquanto roda a chave, uma longa respiração negocia entre seu medo e sua certeza. Seu plebiscito interno é interrompido pela chegada do 4506. Se ela não acelerar os passos, perderá a hora. Nada como o risco de perder o ônibus para ativar qualquer coragem adormecida.

Ainda ofegante e com os pensamentos sacudidos pela correria, ela sente sua carne contrair de nervoso. A ansiedade desperta uma fome esquisita. Se ela pudesse, comeria os ponteiros daqueles minutos que não passam.

Os carros, os muros, os postes e as casas coloriam o borrão causado pela velocidade daquele coletivo. A mistura de cores ganha nitidez pelos olhos da menina que imaginavam como seria Joel ao vivo. O contato virtual, finalmente, ganharia aroma, textura, calor. Ela e todos os seus sentidos estavam prontos para receber aquele homem.

Paula desce do ônibus. Ela estava lá, do outro lado da cidade, escondia da mãe.

A menina tropeça entre tantas pernas ávidas por atravessar na faixa. Ela alcança a entrada do shopping. Suas mãos abraçam as alças da mochila e suam como um copo de água gelada. Seus olhos rastreiam alguém de blusa vermelha.

Nada.

A espera aqueceu as mãos e esfriou a esperança dela. Sentada no ponto de encontro combinado por mais de 40 minutos, sua angústia pintou todas aquelas camisas de vermelho. Qualquer par de pernas que passassem poderia ser ele.

E não era.

Paula, enfim, se levanta certa de que aquele não-encontro foi uma providência divina. Que erro! De costas para o destino, ela sente dedos repousarem sobre seu ombro esquerdo (ou direito). Ela sabia que era ele. Ao virar, seus olhos se reconhecem naqueles traços. O mesmo nariz, o mesmo sorriso, a mesma semente.

– Oi, pai.

Ali, pai e filha se encaram depois de tantos anos.  A raiva do abandono se perdeu naquele abraço forçadamente demorado. A mãe não perdoaria nunca aquele encontro, mas Paula estava disposta a colorir seu vazio.

Ela tinha tantas coisas para falar, mas, enlaçada por aqueles braços, seu silêncio só respondeu pela saudade.

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