Para o tempo

O sol sangrava no céu e ainda iluminava aquela paisagem desconhecida. Com as nuvens coloridas de vermelho, o dia se despedia lá pelas seis da tarde. Embriagada por aquele pôr do sol tão raro, Sara nem se deu conta das tantas voltas que fez com a colher na sua xícara de chocolate-quente.

Nas mesas ao lado, as pessoas se embolavam em conversas animadas. As sílabas embaralhadas exigiam uma atenção caso Sara quisesse se abrigar em alguma conversa alheia. Ela não quis. No entanto, percorreu os olhos como se buscasse um rosto conhecido. Ninguém.

Na mesa com a companhia de um livro de capa bonita, ela deu sua primeira golada. Com os olhos fechados, o calor percorreu todo seu corpo como se a libertasse do frio cruel daquela noite que acabara de nascer.

Sara desperta desse abraço caloroso quando escuta os acordes conhecidos de uma música de Caetano. Era sua música favorita. Aquelas palavras musicadas pela sua língua materna fizeram com que seus ouvidos e coração se sentissem no Brasil, em casa, no colo de sua avó.

Sara balbuciava a primeira estrofe, mastigando aquele ritmo tão íntimo. Finalmente, ela estava acolhida.

És um senhor tão bonito

Quanto a cara do meu filho

Tempo, tempo, tempo, tempo

Vou te fazer um pedido

Tempo, tempo, tempo, tempo

As conversas se silenciaram. Sara se sente observada pelos olhares curiosos dos vizinhos de mesa. Um riso tímido coloriu seu rosto, escondendo a beleza triste da saudade que sentiu. Há quanto tempo não via a avó, seu filho, marido….

Agora, a música parecia gritar ao pé de seus ouvidos. Do acolhimento ao abandono, Sara se sentiu sozinha de novo.

Que sejas ainda mais vivo

No som do meu estribilho

Tempo, tempo, tempo, tempo

Ouve bem o que te digo

Tempo, tempo, tempo, tempo

Um som contínuo invade melodia e pensamentos. Isento de qualquer emoção, era um ruído equidistante, de uma frieza calculada e torturante.

Incomodada, ela toma outra golada do chocolate. Agora, com gosto de café frio.

Ininterrupto, o irritante barulho agudo aguçava suas memórias. Sara sentia saudade de coisas que nunca fez.

Parecia ponteiros de um relógio, mas não eram.

Ela se distancia da música e das lembranças invertidas. O ruído ritmado parecia cada vez mais alto. Sara se sente invadida e angustiada.

Com a respiração cada vez mais pausada, ela recorre ao livro para silenciar barulho e coração. Ao abrir, ela sente um cheiro entorpecente de formol. As páginas estavam em branco, um tom de branco sádico. Confusa, ela olha para as pessoas. Em sua volta, cadeiras completamente vazias. Ninguém.

Novamente, Sara abre o livro, do tom pálido para uma luz cintilante. Ela fecha os olhos e sente seu corpo desligar.

Pausa.

***

Enquanto Caetano recita suas últimas frases em sua rádio mental, ela recobre os sentidos. Abre os olhos e mira uma luz forte pendurada num teto branco como as páginas daquele livro.

Um tubo amargava sua boca tanto quanto aquele café frio. Deitada, ela escorrega seus olhos para o lado direito e percebe seu coração dançar no mesmo ritmo daquela máquina.

Embalada por aquele barulho desumano, Sara estava mesmo mergulhada na noite fria que viu nascer. Na maca, ela sente o tempo escorrer pelas gotas do soro. Com os olhos fechados, ela tenta acordar naquele mesmo café estrangeiro ou no colo de sua avó.

E quando eu tiver saído

Para fora do teu círculo

Tempo, tempo, tempo, tempo

Não serei nem terás sido

Tempo, tempo, tempo, tempo

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