Parapeito

– Dá um trago?

– Pode ficar.

– O maço tá cheio.

– Parei de fumar.

– Faz bem à saúde.

– É meu último.

– Um dia eu paro.

– Um dia eu pulo.

– Um dia é hoje.

– Meu último.

– Dia?

– Fique à vontade.

– O pulo é seu.

– Você não vem?

– O maço tá cheio.

– Te espero.

– Dá um trago?

– Tenho fogo.

– Sei que tem.

-E coragem?

– Tem também?

***

Em uma gargalhada suicida, Marli engasga com a própria saliva dando fim ao seu diálogo imaginário. O cigarro cai, sozinho, e deixa seu rastro de fumaça dali até o asfalto. Enquanto Marli risca seus pés no parapeito daquele edifício de luxo, ela se torna um ponto flutuante visto de cima. Na rua, passos apressados atropelavam seu último trago. Na sala, a TV desligada ameaça até o último volume seu silêncio interior.

Marli tosse repetidas vezes e, aos poucos, afoga na própria ânsia de partir. O ar escapa pelos seus pulmões como aquele céu infinito fosse um mar de água doce. A língua escapa pela boca num soluço profundo e definitivo.

Marli cai do lado oposto ao desejado. Suas pálpebras se fecham e pintam de preto sua última visão. Em um sopro de lucidez, a mulher amarga sua covardia. O corpo cumpriu o que ela não teve coragem. Enfim, seu coração adormece depois do seu último trago de solidão.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s