Sou seu silêncio

Dos silêncios preferidos da Rafaela, estava André. O sorriso dele tocava uma sinfonia inteira dentro do peito dela. Quando esse sorriso embalado atravessava seu olhar, Rafaela mudava a direção. Era tímida demais pra tocar a mesma música.

Ela colecionava informações sobre ele como se preparasse diariamente para uma conversa que nunca aconteceu até então.

Aquele era um dia qualquer no escritório. Uma dessas sextas-feiras que parecem infinitas e o fim do expediente se derramaria em décadas. Cansada, seus dedos salpicavam letras e números numa planilha que só ela entendia. Em segundos de distração, seu olho mirou o relógio pausado e, em seguida, procurou os olhos de André.

Ele olhava pra ela.

Dessa vez, ela não fugiu feito estrela cadente com medo de pedido. Os olhares cruzaram. Ela sorriu. Os dedos, paralisados no teclado pareciam querer dizer alguma coisa. Ela ouviu. Num bloco de notas, ela se desmorona em letras atravessadas.

Sou seu silêncio.

Sou música que toca sua memória.

Sou as notas ensaiadas do seu assobio desafinado.  

Sou seu abraço quente quando tem frio.

Seu arrepio em brisa fresca.

Sou vento que fala.

Sou mar derramado em água doce.

Sua lágrima salgada de alegria.

Sua saudade que nunca teve.

Sou a voz que se cala enquanto dorme.

Sou seu silêncio que grita quando somos um só.

Entre a palavra certa e o ponto final, Rafaela nem vê que André senta perto, em sua frente, esperando ela acabar sua declaração anônima.

Seus olhos estalados quase entregam o silêncio que ela não queria. Ela ri como quem se desculpa de algo, ele se concentra. André olha para as próprias mãos e percebe seus dedos gaguejarem numa tentativa de fazer em Libras um convite pra sair.

Ela molha os lábios para deixar o sorriso escorregar suave num sim.

Ela desliga o computador de forma displicente. Ele pega as coisas com uma pressa de quem tem fome. No elevador, os olhos se concentram no chão, num silêncio confortável. Rafaela sorri por dentro, faz do seu coração uma vitrola antiga para ouvir com perfeição o que ele diz nas entrelinhas.

Eles saem juntos, lado a lado. A mão dela procura a dele sem querer durante o caminho até o bar. Eles sentam, ela segura seus dedos nervosos, prontos para puxar qualquer assunto. Ele sorri e diz pelas mãos uma confissão confusa.

Sem rodeios, seus dedos escrevem no ar como ele estava feliz com o namorado novo, o Felipe.

André divide com ela um dos seus segredos guardados no fundo do armário. O corpo diz por ela seu espanto. Em silêncio, seus dedos permanecem parados, esticados na mesa fria entre dois chops.  Numa fagulha de lucidez, ela sorri por ele. André se sente aliviado. Eles se abraçam e ela ouve a música do sorriso dele que não canta pra ela, mas canta para alguém.

No computador, um poema sem dono e no peito dela um vazio ensurdecedor.

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