Na bagagem

O despertador entrou sem bater no sono dela. Catarina acorda com aquela sensação de mais cinco minutos para saber como o sonho, que ela não lembra, termina. Enquanto o sol aparece pelas cortinas sem fazer alarde, ela checa as notificações do celular. Ainda deitada, seus dedos deslizam pelas últimas notícias, fotos com filtro e mensagens enviadas pela madrugada. Com a boca amarga do sono desfeito, ela ri e se levanta. Em passos arrastados, ela segue em direção ao banheiro para se preparar para mais uma viagem a trabalho.

Enquanto a água quente massageia com delicadeza seus ombros cansados, Catarina sente saudade antecipada. Com medo do atraso, impõe pensamentos práticos com todas as tarefas do dia. Seu senso de organização era seu principal algoz.

Com a toalha abraçada em seus cabelos, ela enxuga o espelho pelas mãos. Refletida, Catarina prepara uma maquiagem simples, regada a filtro solar e batom. Abre a porta do banheiro e ouve o silêncio dos corredores. A casa ainda dorme.

Vestindo a roupa com cuidado, Catarina acelera para ser mais rápida que o tempo. Ela se preocupa com o decote e a calça justa. Ela se preocupa em se sentir bem. Pelo espelho do armário, ela se encara e coloca na mala todos seus sentimentos que la não sabe o nome. Em seguida, tranca as portas e faz um em nome do pai como quem abençoasse a própria ausência.

Chegando ao seu ponto de partida, ela observa os olhares curiosos dos homens que, como ela, se preparavam para o trabalho. Sua presença incomoda. Ela era a única mulher por ali. Entre os risinhos malandros e os comentários encharcados de testosterona, ela segue em direção ao seu companheiro de estrada.

A mão esquerda desliza pelo o para-choque como se fossem dois velhos amigos se cumprimentando.  Enquanto se esquenta com um café exageradamente doce, Catarina checa a carga e acompanha a boleia se preencher de caixas e saudade.

Saudade do que não tem. Do casamento que não quis, dos filhos que vivem nas cobranças de tias distantes. Na sua bagagem particular, Catarina leva também o medo de não chegar seja na ida ou na volta.

Dali, ela dá a partida e ganha a estrada, deixando pra trás as dúvidas dos outros que ela nunca teve. A janela lateral do caminhão se transformam em um porta-retrato em movimento e a estrada se derrama em um abraço acolhedor. Catarina se sente em casa.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s