Revoada

O que tem por trás das despedidas? Um abraço longo de duas pessoas que não sabem como será a partir dali.

Despedir é transbordar em reticências.

E eu transbordei, filha. Afoguei no meu silêncio. Meus pulmões não suportavam mais respirar palavras.

Desmanchei.

Não sei onde perdi as cores da parede desse quarto. Sempre foram brancas? Encardidas como aquele espaço entre um azulejo e outro do banheiro. Um vazio preenchido da sujeira que deixamos pra lá, pra amanhã, pra nunca, pra sempre.

Pensar no infinito confunde a gente. Por tempos pensei no infinito como mar escuro de memórias. Não queria perder de vista as cores lindas dos seus olhos, o branco do seu sorriso sujo de batom. Não queria ver você perdendo suas cores pelo tempo como eu.

Desbotei.

Perdi, filha. Hoje, abri a janela do quarto pela primeira vez em meses. Não sei dizer quantos, mas muitos. A cidade cinza movimentava pessoas, carros, sirenes e buzinas. Me deu uma angústia por tentar te achar entre tantos pontinhos correndo nas ruas. Tentei chorar, achei que queria, mas não.

Eram pontinhos cinzas demais para ser você. É colorida. Peguei sua foto na cabeceira e te vi refletida no sol. O vidro do porta-retrato parecia incendiar meus olhos. Não conseguia parar te ver. Aí me veio uma saudade antecipada. Agarrei aquela fotografia como a gente vê nos filmes.  

Despedi.

Não sabia como seria a partir de agora nem pra mim, nem pra você. Engraçado uma mãe não saber das coisas. A minha sempre sabia de tudo e eu não. Tive medo de você descobrir que eu era uma farsa. Dessas mães mentirosas que se escondem nos sonhos dos filhos. Bobagem. Esse era o menor dos meus medos.

Já sentiu medo, filha? Desses medos de dar calafrio, acelerar a respiração. Eu já. Tenho medo do escuro. Não desses escuro da porta fechada, da noite vazia. Meu medo é de não ver a luz refletir as cores. Olhar e não encarar mais os seus olhos tão brilhantes, como da foto. Medo do escuro que pintei na parede desse quarto… A partir de agora, minha filha, começam as reticências.

Desisti.

***

Cris sente seu nariz entupir como se o choro a impedisse de respirar. Na sala de espera do hospital, ela lê a letra de forma da mãe ganhar vida. A cabeça pesava como se ajudasse o coração a processar tantos sentimentos sem nome.

Enquanto limpava o nariz e dobrava aquele adeus em papel, o médico se aproxima. Eles se encaram. Ela tem medo de ouvir da boca dele o que a mãe anunciou. Cris fecha os olhos numa tentativa de sumir. As pálpebras espremem o grito de pavor.

Ela sente a mão pesada do médico no seu ombro. Ela levanta a cabeça e ouve com os olhos.

– Ela acordou e quer ver você.

A boca aberta dela não cabia o sorriso de espanto. Ela se levanta e corre como se esquecesse onde estava. As mãos empurram a porta e ela vê a mãe na maca lateral.  Cris se senta ao lado faz um gesto de silêncio interrompendo o que sua mãe pensava em dizer.  Foi Cris quem disse:

– Eu não desisti de você, mãe.

 

Foto: Leopoldo Rezende

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