Pelas mãos

Os gritos de dor penetravam as paredes daquele quarto. Vera acelerou os passos como se trouxesse a cura nas mãos. Ela atropelou os olhares curiosos e desmanchou da memória tudo que não fizesse sentido para aquele momento. Cada grito silenciava seus pensamentos. Parecia que os ponteiros caminhavam em câmera lenta para que Vera pudesse chegar mais rápido.

E chegou.

Na cama, uma mulher suava como se derramasse em desespero e agonia. Vera parou por instantes na porta, respirou fundo, tentando tirar do ar forças e coragem. Seus dedos estavam quentes tanto pela pressa quanto pela prece. Ela estava pronta.

Ao se aproximar da cama, as pessoas se afastaram. Os cabelos grudados na testa da mulher deram licença aos olhos negros que clamavam por alívio. Uma lágrima ameaçou a saltar daquele olhar desesperado, quase infantil.

Com as mãos repousadas na barriga da mulher, Vera parecia acalmar o bebê em um minucioso exame de toque. Ela encarou aquela lágrima covarde que ainda estava lá e disse.

– Os gritos da mãe assustam a criança. Seu filho já vai chegar com medo do mundo. A dor é para te fazer forte. Acalma.

Foi assim que ela conseguiu transformar os gritos dela em oração murmurada. Uma oração em coro com todas os outros sussurros que inundavam aquele quarto.

Vera se senta e encara uma parta para a vida, escura, úmida e infinita. Do outro lado, a mãe interrompe a oração para fazer força. Esmaga em seus dentes serrados a dor que ela insiste em não sentir mais. Pelas mãos, Vera sente a chegada de um corpo miúdo, uma semente em silêncio.

E chegou.

Uma das mãos corta o laço entre mãe e filho. A outra rapidamente ergue a criança para que todos pudessem, pela primeira vez, ouvir seu grito de vida. O choro estridente penetrou as paredes daquele quarto. Com a experiência de quem já foi mãe inúmeras vezes, Vera limpa e envolve a criança para os braços da mulher. As orações interrompidas por um amém agradecido dão lugar aos abraços calorosos da família que acabara de crescer.

Vera se limpa e se despede. Os passos já não têm pressa para chegar em casa. No caminho, com a lua como companhia, Vera agradece em silêncio por mais uma vez sentir a vida chegando em suas mãos.

Seus dedos envelhecidos tocam seu ventre seco e oco pelos filhos que nunca teve. Na porta do seu barracão, a parteira ouve o silêncio daquelas paredes. A casa calada e adormecida no breu. Só ela chega para dar luz ao vazio.

E chegou.

 

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