Engarrafada

As luzes dos carros no trânsito engarrafado transformavam a rua em uma grande árvore de Natal. Era assim que Larissa se distraia desde pequena na lentidão do tráfego. Essa lembrança roubada da infância trouxe um sorriso estupido diante da situação.

Do sorriso, um susto a trouxe de volta ao volante. Uma moto tomou sua atenção ao passar tão perto do seu retrovisor, quase arranhou o carro como fez com as suas lembranças. Das memórias aos faróis, Larissa liga o rádio para interromper as buzinas desritmadas.

A chuva expulsou o dia rapidamente. Em minutos a noite caiu. Ao redor, entre gaiolas de rodas enfileiradas, pessoas como ela, sozinhas nos carros, presas no trânsito e nas suas rotinas. De repente, Larissa sente seu coração desacelerar,  numa sintonia com a seta do carro da frente. A vista escurece como se seus pensamentos também passassem por um dia chuvoso.

Seu mundo estava em câmera lenta.

O limpador de para-brisas fazia um som hipnótico. Em instantes, com a boca semiaberta de quem já não está mais ali, Larissa se agarra a respiração lenta para não se afogar na própria ansiedade.

Esfrega as mãos dormentes uma na outra e, em seguida, no rosto. No retrovisor, ela vê sua figura mergulhada nas luzes dos faróis. As buzinas pareciam estar dentro do seu peito. A cabeça dói. No relógio do carro, os minutos gritavam seu atraso. Já se passaram mais de 40 minutos do horário combinado.

É o trânsito.

Os pequenos avanços deixavam a mulher mais próxima do seu destino e ainda mais perto da sua própria loucura. Ela olha de um lado para outro, numa esperança tola de alguma rua livre, algum atalho, alguma porta aberta para sua liberdade fingida.

Larissa estava totalmente presa e o mundo parecia estar no último volume.

O som do para-brisa, da chuva batendo no vidro, das buzinas, do rádio, da sua respiração e da cadeirinha vazia no banco de trás faziam parte de um imenso grito de pavor.

Um grito que ela engoliu.

Mais quarenta minutos se passaram e Larissa chegou. Ela sai do carro, enfrenta a chuva e se derrama em um abraço longo. Nos olhos da criança, ela vê o reflexo daquele atraso. Inchados pela saudade, aquele olhar a aprisiona por uma culpa que não era dela.

A culpa é do trânsito.

 

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