A indigestão da culpa

O dia seguinte parece nunca perdoar a noite anterior. Ele sempre chega. Era isso que Ellen pensava quando sentiu o sol ultrapassar as cortinas e queimar suas bochechas. Os olhos ainda inchados teimavam em permanecer fechados enquanto o calor da coberta parecia queimar a pele da menina. A bexiga prestes a explodir impedia quaisquer cinco minutinhos a mais na cama. O chinelo a arrastou do quarto ao banheiro. Ellen viu como a maquiagem mal tirada deformou seu rosto. As olheiras pareciam buracos e, nos cílios, as remelas negras do rímel deixavam as pálpebras ainda mais pesadas. Ela pega a escova e estupra o tubo de pasta dental até a última gota. Enquanto escova os dentes e tira o gosto amargo da noite, ela sente seu estomago gemer.

Fome.

Ellen se derrama até a geladeira como se não soubesse de cor tudo eu estava lá e o que não estava. Ovos pendurados na porta, garrafa d’água, um mamão comido pelo mofo e sacolas emboladas que denunciavam sua desorganização.

Vazio.

Ela toma água no bico da garrafa numa tentativa de afogar a fome. Em dois passos seguintes, volta para a cama com o celular em mãos. Entre curtidas e comentários despretensiosos, seus dedos deslizam pela vida das pessoas mais felizes que ela. Os sorrisos brancos nas selfies pareciam preencher seu estomago oco de solidão. Ela queria fazer parte daquele coro virtual da felicidade, mas nenhum filtro seria capaz de salvar seu domingo.

Pizza.

Sua fome gritava e ela se rendeu. No combo, refrigerante e sorvete. Em meia hora ela teria companhia.

Finalmente de pé, Ellen arruma a cama numa tentativa de ser útil pra si. Tira a blusa velha feita de pijama e, nua, se olha no espelho do quarto. Os seios pesavam ainda mais quando eram refletidos. A marca de biquíni se apagou. O bronze se limitava ao braço em uma marca de manga de blusa que ela sempre detestou. A maquiagem desfeita parecia deformar todo seu reflexo. Ela não se reconheceu.

O interfone interrompeu todos os pensamentos torturantes. Tomada por uma frieza contrastante pelo dia quente, Ellen se vestiu.

Enquanto ela se equilibrava da porta até a cozinha, o cheiro despertou um prazer quase sexual. Ela sentiu seu estomago se contorcer, a língua estava prestes a se afogar pela saliva.

Ellen se derreteu. Em frente à TV, ignorando qualquer convite de um passeio vindo pelo céu de brigadeiro daquele domingo, ela comeu, repetiu e sentiu todo sabor escorrendo pelos dedos.

Desmanchada no sofá, ela encara a porta do banheiro semi-aberta. O peso da comida repousada em seu estômago incomodava. Hipnotizada pela possibilidade de se libertar daquele dolo, ela segue em direção ao seu algoz.

Sim. A culpa é indigesta.

Com as mãos pesadas sobre a pia, Ellen não queria se virar. Ela não queria ser mais uma refém daquela rotina.  O estômago treinado esperava os dedos acionarem o comando… que não veio.

Ellen se olhou no espelho e, finalmente, se reconheceu.

Tirou as roupas, entrou no banho, sentiu a água fria aquecer. Seus dedos percorreram suas curvas, suas dobras, deslizou pela sua felicidade clandestina. Ela se amou.

O dia seguinte realmente não perdoa. Ele insiste para fazer dela uma mulher ainda mais forte.

 

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