Em brasa

Minha mãe tinha uma voz grave. As palavras que saiam da boca dela pareciam um som escapando de uma estação de rádio não sintonizada. Ela sorria em momentos raros, mas eu lembro do barulho que sua garganta fazia pra rir. Não sabia se era tosse espremida ou riso solto.

Entre os dedos, um cigarro.

O cheiro de nicotina me faz lembrar o abraço dela. Os cabelos se enrolavam no meu nariz e eu quase afogava toda vez. Ela não era muito de beijo. Era mais de tapinha nas costas, de pequenas cordialidades. Não era do cafuné. Eu aprendia obedecendo.

Lembro quando peguei um cigarro no maço em cima da geladeira. Ela tava dormindo embalada pelo ventilador e fui até a cozinha como se meus passos denunciassem o furto. Coloquei um entre os dedos e não acendi.

Queria escrever com aquele cigarro apagado qualquer história em que minha mãe se orgulhasse.

Naquela noite, ela pegou um deles e acendeu. Olhei bem fundo pros olhos daquela brasa.  Aprendi a tragar olhando. Não sei se foi pela minha curiosidade exagerada, ou pelo seu interesse em me mostrar quem manda, mas, nesse dia, ela me disse que o cigarro era o único companheiro dela. Ela só confiava naquele maço. De resto, ela só tinha decepção na vida.

Juro que não me importei. Na verdade, naquele tempo, não entendia muito bem das coisas. As palavras não eram carregadas de um sentido como são hoje. Decepção era uma palavra com som bonito e só.

Queria ser como ela.

Não demorou muito pra ter coragem. Acendi e traguei. Meus pulmões se encheram daquele cheiro da minha mãe. Era como se ela estivesse dentro de mim. Achei fantástico ver tanta fumaça saindo. Assistir à brasa corroendo o palito branco diante dos meus olhos me deu poder. Dali em diante, erámos nós dois.

Não me lembro bem o que minha mãe disse quando viu. Acho que era pra comprar os meus cigarros com meu próprio dinheiro. Algo assim. Esqueci.

A gente deixou de se falar pouco depois, mas lembro um pouco dela sempre quando acendo um cigarro com calma, como hoje.

Dia de visita é assim.  Gosto de ver quem vem de fora com os olhos carregados de boas notícias. Mentira. Um teatro danado. Ninguém quer vir ou estar aqui. Daí, os abraços apertados chegam pra amenizar a saudade dos dias.

Saudade é coisa de gente à toa.

Uma vez por semana vem essa injeção de morfina. Os bolos caseiros, as crianças de colo querendo um colo que já não é mais delas. As risadas como tira gosto. O café quente pra substituir uma cerveja gelada. Bobagem. Eu prefiro sentir a dor. Isso é real.

A vida dói.

Sorte a minha. Ninguém vem.

A velha tava mesmo certa quando disse que o cigarro era o único companheiro que ela tinha. Hoje, ele é meu também.

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