Amora

Embaixo daquele teto branco, tudo tinha a mesma cor. Meus olhos se cansavam de ler as mesmas placas, os lábios trêmulos, as despedidas. A TV sem som, as visitas, os encontros, tudo tinha a mesma dor.

Nos corredores, passos lentos de quem tem preguiça de chegar. Na madrugada fria, o lençol contorna corpos que choram em silêncio.

Ali, todo mundo se derrama aos poucos.

Nos soros, a vida em conta-gotas anuncia a contagem regressiva que a gente insiste em não perceber. Eu percebi faz tempo.

Minhas visitas se cansaram rápido da poltrona desconfortável de acompanhante. Não me importei. Juro! O semblante piedoso me dava azia. Melhor um tapinha nas costas entre às 15 e 16h do que uma pergunta de 15 em 15 minutos se quero alguma coisa.

Quero sair daqui. Minha resposta era padrão como o branco tedioso daquele lugar. Minha rotina me cegou. Era incapaz de ver outras cores senão o branco em silêncio, o cinza amargo da comida, da espera, da saudade.

Até que num desses dias sem nome, ela chegou. Vestindo um sorriso de poesia, ela coloriu. Atrás do seu nariz vermelho, a cura.

Eu não me apaixonei por ela. Eu me apaixonei com ela. Com a possibilidade de sentir o cheiro da rua, de correr, de ver o mar, de mergulhar, de sorrir… de novo. Pela primeira vez, senti saudade do escuro. Apagar a luz branca daquele quarto e mergulhar na escuridão antes mesmo de dormir.

No escuro dos olhos dela, luz.

Quando ela se apresentou, não poderia ter outro nome. Da fruta doce, Amora.

 

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