Ponto final

Escrevo pra não me esquecer.

Não pra me lembrar de como arranquei sozinha meu primeiro dente de leite, ou como é a voz da minha avó ou de como meu coração congelou quando vi minha irmã pela última vez. As memórias fazem parte da gente como a pele. Encobre o que somos e cicatriza o que vivemos.

Viver é lembrar.

Escrevo pra viver. Tatuar nas linhas o que sou, o que fui e o que serei mesmo depois de morta.

Esquecer é morrer.

Escrevo pra não amargar embaixo da terra e ser só memória de quem me amou. Escrevo pra lembrar de mim quando não for eu mesma.

Quero fincar nas letras, nos pingos e nas vírgulas a bandeira do meu passado. Quero ser reticência, quero ser até logo na próxima página.

Preciso ser palavra.

Não essa palavra solta em verso displicente que fugiu dos meus dedos sem ao menos estar pronto. Quero ser palavra feita na memória de quem leu. Escrevo pra me lembrar, me lembro pra viver…

***

– O que tanto escreve aí, mãe?

– Uma carta pra mim.

– Pra você mesma?

– …

– Mãe?

– O quê?

– Me deixa ler

– Eu já me esqueci.

– Do quê?

– Do final.

– Da carta?

– Não. Me esqueci de ser final.

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