Sobras

Encontrei no lixo o que faltava em mim. Resto de vida das pessoas. Restos de memórias que me fazem lembrar de quem eu fui, aliás, de quem eu queria ser. As pessoas jogam fora o que sobra e, na minha vida, falta muita coisa.

Uma vez, vi um criado mudo banguela de uma gaveta na esquina de duas ruas paralelas lá de cima. Tava esperando para atravessar a rua e senti naquela ausência um tanto de história pra contar.

Peguei num ímpeto de mudar o destino de alguma coisa.

Cheguei em casa. Ninguém. Humberto já tinha saído para o trabalho, eu acho. Olhei para o silêncio daquele móvel sujo por horas. Aquelas rasuras me hipnotizaram. Abri a gaveta que resistiu. No vazio, papéis com recibos de cartões. Achei graça em ver aqueles valores somando uma história. Muitos estavam apagados. Ainda não entendo a lógica de uma tinta escapulir com o tempo, como a memória da gente.

Guardei. Nem sequer passei um pano. Nada. Dizem que a gente não escolhe presente e, naquele momento, o criado era a presença que eu tinha.

Assim foi. Mergulhei de vez na poeira do esquecimento. Resgatei bancos, livros, roupas, planos, recados anotados que talvez nem foram entregues, cartões de aniversário com frases genéricas… Reticências da vida de quem eu não conhecia.

Só contei para Humberto quando, num rompante de saudade, ele abriu a porta do quarto da Carol. A memória da nossa filha ganhou retalhos de outras histórias. Ele nunca entendeu, mas eu realmente queria ser dona do destino de alguma coisa.

No vazio daquele quarto, as sobras cravadas da nossa vida.

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