Agulha

Minha avó não era uma mulher de histórias memoráveis. Pelo menos para os nossos convencionais heróis. Não acumulou grandes feitos na vida. Era viúva, já tinha enterrado dois dos seus oito filhos adultos. Todos no mesmo ano em que minha mãe se casou. Era uma senhora qualquer. Religiosa, monossilábica e que se escondia atrás dos óculos bifocais.

Nunca soube o que era o luto pra ela. Nunca conversamos sobre isso. Aliás, nunca conversamos de fato sobre a sua vida além de trivialidades com respostas curtas. Velhos não são divertidos aos olhos de uma criança no auge do seu egoísmo infantil. Quando ela veio morar com a gente, tinha 4 ou 5 anos.

O mundo cabia no meu quarto.

Num sábado qualquer, ou numa dessas quartas-feiras tediosas de férias escolares, brincava de fazer roupa para as minhas bonecas. Ela fazia um interminável caminho de mesa. Ela sempre estava fazendo um caminho de mesa. Ela e eu. Ela estava na cadeira de balanço e eu sentada no chão. Os retalhos espalhados coloriam o silêncio daquele quarto. Penteava o cabelo cortado de uma das minhas meninas sem roupa quando a respiração pausada da vovó parou.

Era como se ela engolisse o ar num soluço assustado.

Finquei meus olhos nela. Vovó deslizava o dedão e o indicador de uma das suas mãos trêmulas. Lembro que olhei com frieza aquele sangue que pingou no seu vestido claro. Ela olhava fixamente para aquele dedo. Olhamos juntas. Estranhei como aquela adulta estava lidando com seu machucado. Sem choro. Sarou? Pensei. Ela continuou olhando. A outra mão se sujou, mas não muito. Ela olhava para o próprio sangue como se aquilo fosse uma revelação.

O fim da novela.

O recado paroquial do fim da missa.

A última frase antes do boa noite.

Permaneci no chão sem entender como alguém brinca com o próprio sangue. Ela ignorou minha companhia no quarto. Limpou os dedos no vestido. Pegou a agulha, não a de crochê, uma outra, seu algoz, para continuar o acabamento naquele eterno caminho de mesa. Continuei olhando pra ela por mais alguns minutos e voltamos ao nosso silêncio.

Vovó morreu aos 94 anos sem se reconhecer no espelho e na própria vida. Esqueceu-se de si, de nós, do crochê. Esquece-se daquele dia, no quarto, quando estávamos sozinhas. Quando ela se deparou com o próprio vermelho vivo que corria nas veias e de como ela ainda estava presente. Ainda estava ali.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s