A culpa é minha

Não me lembro direito como aconteceu. Sabe quando você se distancia das próprias memórias e parece assistir a um filme esquisito. Quem estava lá era um reflexo meu, feito espelho quebrado, sombra colorida de nada.

Não era eu, mas era meu.

Era a minha pele, meu corpo, meu ar. Das coisas nessa memória encardida, minha respiração era a minha única voz.

Foi num dia quente. Aqueles dias em que o suor se ocupa de tudo minutos depois de um banho gelado. Estava atrasada pra aula como estou sempre atrasada pra tudo. Prendi o cabelo enquanto via da janela do quarto o sol insistir em ficar. Horário de verão é assim. Parece que deixa todo mundo mais corajoso. A gente se sente livre pra enfrentar as esquinas porque o dia ainda está lá, clareando o vazio.

Foi isso que fiz. Me entupi de coragem nesse dia que ardia.

Sai de casa com um vestido de flor. Eu realmente não tenho costume de sair assim, com as pernas de fora e cantantes pela rua. Acho feio. Não me sinto bem. Minhas pernas são tagarelas e desajustadas, têm alguns pelinhos fora do lugar. Não gosto, mas era verão e fazia um calor fora do comum.

Mergulhada ainda naquele céu claro, segui para o ponto de ônibus. Meus passos largos rabiscavam minha pressa. Minhas pernas dançavam livres e despreocupadas. Eu também. O reflexo dos carros mostravam uma mocinha de vestido. Achei graça. Era eu.

Um puxão pelo braço é, talvez, a minha última memória concreta desse dia. Uma mão tampou meu nariz e boca. Senti um gosto de sal. Dali em diante, só ouvi a minha respiração. Meus olhos filmavam uma história que eu não queria contar.

Não era eu.

Um grito ameaçou sair. Não sei se ele conseguiu escapar. Eu não. Permaneci imóvel. Como a minha memória que se esqueceu de lembrar. Presa em teia de outras mãos, segui para um lugar qualquer. Me senti poeira de tão pequena para caber ali.

Minhas pernas estavam presas em outras pernas. Dor.

O dia se despedia, mas ainda estava claro. Mesmo assim, eu só vi sombra. Não era gente, era um vazio de alguém. Algo escapava da boca dele, mas não ouvi. Só escutava o vento que invadia meus pulmões.

Abriu uma ferida naquela pele que eu não queria mais usar. Eu me abri em dor.

Um outro olhar desenhou aquela cena. Alguém viu. Eu acho. Não estávamos sozinhos. Apaguei. O grito guardado me cegou.

Delegacia.

Policiais, família, médicos. A culpa foi minha, doutor. Eu nunca mais uso vestido.

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