Nem ela, nem eu

Era noite. Da área, vi o sol correr pelos prédios feito notícia ruim. Estava esfregando as toalhas no tanque e balbuciava uma música qualquer como há muito não fazia. Não estava feliz, nem triste, mas estava ali, presente. Sentia o cheiro do sabão em pó e o suor encharcar minha cara de sal quando ele chegou.

A porta bateu e ele imediatamente gritou meu nome. Respondi num grito baixo. Gritei sem querer ser ouvida.

Respirei fundo e me vi mergulhada no escuro nos fundos da casa. Ele gritou de novo e mais forte. Precisava acender a luz se quisesse terminar o trabalho, mas desejei ficar quieta para passar despercebida. Não deu.

Ele chegou por trás continuei a esfregar. As toalhas sentiram na pele minha força. Ele me abraçou e eu fechei os olhos. Não sabia o que esperar daquele abraço. Senti vazio. Acho que me esvazio a cada toque dele.

Botei os olhos naquela água turva. Queria ser sabão e me misturar ali, escondida. Ignorei sua presença todo o tempo. Não por desaforo, mas por medo.

Ele me pediu café. Respondi que sim num silêncio consentido. Ele queria naquele momento. Não. Continuei a esfregar. Esfreguei com mais força a cada palavra de ordem. Ele queria café, ele queria café naquela hora. Eu queria sumir.

Uma lágrima desceu e aquilo me deu ódio de mim. Do suor, senti frio. Ele me viu chorar. Com a força de quem esfrega toalhas, ele me pegou pelo braço. Fechei os olhos com essa mesma força. Segurei meu grito nas pálpebras. O peso da sua mão esmagou toda a minha adrenalina. Permaneci imóvel.

Num empurrão, cheguei até a cozinha. Ainda com as mãos molhadas do sabão, passei o café. Com pouco açúcar, ele pediu. O vapor secou um choro que nem me lembrava de estar ali. Servi e ele me deu um beijo no rosto.

Voltei para as toalhas sozinha enfim. Esfreguei, enxaguei, torci e pendurei. Ainda mergulhada naquele escuro.

Na sala, ele passava pelos canais com o riso de uma criança desatenta. Segui para o banheiro. Desviei o olhar do espelho. Não queria ver. Não dessa vez. Pedi pra água corrente levar embora aquela dor que parece fazer parte de mim.

Deitei. Meu corpo coube todo em um pequeno espaço da cama. Fazia calor e, mesmo assim, me cobri. Me fiz invisível. Quando acordei, ele estava lá. Dormindo. Entre nós, nenhum sentimento a não ser o de culpa. Dele eu não sei, mas era culpa o que eu sentia.

Na porta da padaria, uma moça bonita distribuía rosas para quem passava. Sorrimos uma para a outra numa cordialidade padrão entre desconhecidos. Ela estendeu a mão e me entregou a flor. Vermelha.

Feliz dia da mulher, ela me explicou.

Fitei a rosa e a gente se olhou de novo. Ela e eu. Nenhuma de nós entendeu porque estávamos ali, juntas, mas, de alguma forma, eu não estava feliz. Nem ela.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s