Molho

Sentada no sofá com a bolsa no colo, Inês olhava pra si mesma no reflexo da TV desligada. Imóvel, sua cabeça narrava diálogos inteiros, desafiando o silêncio daquela sala vazia. O barulho da geladeira antiga fazia a trilha angustiante de espera.

A mulher escorreu os olhos pelo relógio de pulso. Os minutos entregavam um atraso sutil, tão insensato quanto seu nervosismo fora de hora. Os lábios se abriram num suspiro forte, um desabafo de vento em que ela, somente ela, pôde ouvir um palavrão. Então, num rompante de quem toma a decisão mais importante da vida, ela se levantou.

Pelo corredor, seu salto fazia um barulho desajustado. No espelho do banheiro, ela deixou um sorriso de canto de boca entregar o quanto estava se sentindo linda. Seu raro momento de autocontemplação foi interrompido sem piedade pela barulhenta porta da sala.

Ela se agarra à pia como se pedisse um abraço de alguém.

Seu coração acelerado contrastava com os passos tranquilos que se encontravam pela casa.

Imediatamente, ela levanta a cabeça e se pinta de coragem. Prende os cabelos enquanto caminha numa tentativa de parecer despretensiosa e, mesmo assim, ela não consegue disfarçar o desconforto em ver aquele homem em pé diante dela.

Seu sorriso molha um oi tímido, colegial. Ele ensaia um abraço, ela se atrapalha num aperto de mão. Ali, os braços se enroscam num cumprimento distante, entre dois desconhecidos íntimos. Ele entrega as chaves enquanto perguntava sobre o novo porteiro. Ela não consegue responder com alguma coisa que fizesse sentido. Suas frases foram completamente atropeladas pelo desejo de tirar aquele chaveiro que lembrava tanto a primeira viagem que fizeram juntos. Ele se dispôs a ajudar, enquanto ela se cortava com a argola que prendia tantas chaves. Ela se irritou. Ele guardou as mãos no bolso enquanto tentava se reconhecer naquele apartamento.

Não se via mais ali. As paredes pareciam poros acessos que transpiravam o cheiro dela. As fotos trocadas denunciavam um recomeço de quem ainda não escreveu o fim. Era pra isso que ele estava lá naquela noite.

Inês guardou a chave na gaveta e estendeu a mão com o chaveiro quebrado. Pediu desculpas, desviando o olhar como se não se importasse. Os dois engoliram aquele silêncio enquanto as mãos geladas se cruzavam. Ela estranhou estar tão perto dele.

Em um tapinha no braço, Inês se esquivou daquele desconforto. Pegou a bolsa com toda a segurança de quem pisa no acelerador e o convida com o olhar. Eles seguem para a porta com o mesmo objetivo, encerrar a noite como bons amigos.

O restaurante era na esquina. O preferido do domingo preguiçoso. No entanto, aquela noite era diferente. Era quarta, e as mãos não estavam dadas. Ele, com as mãos enterradas no bolso, falava sobre coisas que Inês não ouviu.

Mesmo com o pedido de sempre e a mesma piada do garçom, o jantar não teve o mesmo gosto.

Madrugada. Inês finge que dorme até escutar as respirações pausadas dele. No teto, pintava memórias até seus olhos se afogarem. Ela não se reconhecia mais naquele quadro. Nem ele.

Manhã. A cama vazia fez tudo parecer um filme entediante. Sentada na cama, seus ouvidos se esforçam para ouvir algum barulho que denunciasse alguém no banheiro, na cozinha, talvez.

Silêncio.

Ela se deita e rasteja a mão até o criado. Inês procura o celular, o relógio ou qualquer ingrato que lhe diga as horas.

Ela encontra a chave com o chaveiro quebrado.

Uma despedida de quem ainda não quer ir embora.

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