Corredor

Eliza se olhou no espelho do vestiário como quem vê o mar pela primeira vez. O olhar mergulhado em si mesmo deslizava pelos botões do jaleco até o nome bordado no bolso. As mãos seguiram para o cabelo e ajeitavam o coque bem feito. Como uma medalha, ela mesma coloca o estetoscópio. Parada feito foto emoldurada na sala, sentiu orgulho. Estava pronta.

O tapete vermelho se pintou de corredor branco. De porta em porta, pessoas de cabeça baixa deslizavam apressadas. Eliza olhou para os lados como quem está prestes a atravessar o sinal vermelho e se misturou. Abaixou a cabeça para ser igual, mas não queria ter pressa. Queria ouvir seu sapato tocar o chão.

Seus passos cantavam uma certeza como os ponteiros contam o tempo.

Esmagou o frio na barriga com sua prancheta contra o peito. Como os outros, ela parecia saber exatamente o que estava fazendo. E sabia.

Era sua primeira ronda. Ela não podia errar.

Seguiu para a primeira porta entreaberta. Queria chamar aquele número pelo nome. Olhou nos papeis antes de entrar na sala. Não encontrou. Espremeu os olhos para estancar o nervosismo e entrou. Vestiu o melhor sorriso para ninguém ver. Naquele quarto, um homem deitado só tinha olhos pra janela. Culpa do dia que entrou antes dela.

O sol desenhava na mesinha a sombra de um copo descartável e de uma colher caída.  Na prede, o espaço vazio para uma TV que não existia. A coberta formava uma silhueta miúda. Os braços do homem estavam esticados e presos naquela maca.

Eliza percorreu todo o cenário e sentiu, nos próprios punhos, a dor.

Numa respiração mais alta, ela convida, sem querer, o homem a se virar. Ele percebe que não está mais sozinho ali, naquele quarto. Quando vira seu rosto, com dificuldade, ele lança seus olhos cansados de quem espera a morte desde que nasceu. Eles se encontram no silêncio interrompido pela voz rouca. Um som escapa feito poeira da boca trêmula daquele homem.

– Eliza.

As mãos presas dele tentam falar mais alto em gestos decapitados pelas cordas. Ela engole a própria respiração. A cabeça dói. Os punhos abandonam a prancheta e se fecham.

– Eliza!

Ela odiou ouvir daquela boca o próprio nome. Quem é aquele homem? A cabeça dói. Os punhos esmagam com força seus pensamentos.

– Eliza! Eliza!

Mãos tomaram a mulher. O corpo dela se paralisou. Seus próprios braços a abraçaram com força. Como os pulsos do homem, seus punhos se prenderam em um nó nas costas.

Silêncio.

A cabeça parou de doer. O coque se desfez e o jaleco, com outro nome bordado, voltou ao vestiário da ala psiquiátrica. Eliza se tornou mais um número em uma daquelas portas no imenso corredor branco.

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