Elevador

Naquela sexta-feira, Soraia estava prestes a terminar o expediente. Entre o sobe e desce de pessoas no elevador, ela tentava concluir a leitura do seu livro. Os dedos marcavam a frase interrompida a cada minuto. Eram 23 andares para escolher. Sentada numa cadeira fria, Soraia apertava o número do andar desejado com um sorriso automático de quem só vive para o fim de semana.

Pelas páginas daquele romance enletrado, ela fazia da sua sala flutuante um novo lugar. Soraia vivia o drama da personagem principal como quem mata a fome de esperança. Seu relógio marcava 17:47.

– Subindo.

Cinco pessoas entraram numa fila imaginária. Olhavam para ela como se a cadeira estivesse vazia. Com a mão esquerda abraçada ao livro, seus dedos da mão direita seguiam treinados para cada um dos números soletrados, entre eles, o 21º andar. A porta se fechou e o elevador seguiu.

O silêncio era um acordo velado entre os desconhecidos até o último, enfim, descer. O relógio marcava 17:55. Eram cinco minutos de expediente que separavam a mulher do felizes para sempre do livro e da sua semana. Sem pensar muito, Soraia aperta o 23º andar. O último daquele antigo prédio estava desativado para reforma há meses e era perfeito para curtir cada letra da última página.

Chegou! Com as portas abertas, a luz vinda daquele elevador cortou o escuro tomado pela poeira. O silêncio guardava aquele lugar. Soraia varreu com os olhos o corredor.  Ali, estava somente com a companhia do seu romance. Sentiu um medo esquisito, desses que fazem a gente voltar ao tempo. Com um riso de canto, engoliu a angústia, travou o elevador e se sentou. 17:58. Com o livro no colo, Soraia mastigava as frases com pressa até o ponto final.

Passos.

Com os sentidos aflorados, Soraia ouviu. Nem deu tempo de questionar sua imaginação. Na porta do elevador, um homem sorria. Os olhos arregalados entregavam o medo. Mesmo assim, da sua boca escapou:

– Descendo.

O homem entrou. As portas se fecharam com a mesma velocidade em que Soraia fechou seu livro. Ela o encarou sem se preocupar em disfarçar o espanto. Era alto, bonito, parecia familiar. O medo deu lugar a atração. Ela abaixou a cabeça e sentiu os olhos daquele homem tocarem seus cabelos.

Mirou o relógio, 18:01, e percebeu que ainda estavam lá, parados no 23º andar.

Enquanto ensaiava quebrar o vazio com alguma pergunta amena, sentiu as mãos do homem em seus ombros.  Ela se esquivou sem coragem de olhar pra trás. Suas mãos trêmulas escalaram o painel de números rumo ao botão de emergência. Soraia sente o homem a levantar bruscamente.

Agora de pé, ela traga a respiração dele. De tão próximos, ela se vê nos olhos daquele homem. As bocas se aproximam, mas não se tocam. Ela sente seu corpo todo sendo invadido pelo corpo dele. O pavor a deixa imóvel.

Ela engole o grito e sente as mãos dele tirarem sua blusa. Seus olhos se esquecem de piscar. Imóvel, Soraia percebe que ele envolve as mangas do seu uniforme no seu pescoço. Ela tenta sair do transe enquanto vê um nó se formar.

Suas mãos correm para sua garganta. Soraia tenta desfazer aquele laço de morte e vê o homem se afastar. Ela escorre até o chão, seu rosto parece ferver. Nas suas costas, ela sente o elevador percorrer os andares com pressa. Ela fecha os olhos e vê o mesmo escuro empoeirado do 23ª andar.

Silêncio.

As portas se abrem no térreo. Soraia está sozinha com a própria blusa enrolada no pescoço. Quando se recupera do desmaio, ela vê, entre os olhares curiosos no hall do antigo prédio, o homem, seu algoz, com seu livro nas mãos.

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