Me diz

A paisagem borrada da janela chamou mais a atenção de Silvia do que o Neruda que esperava há dias para ser lido. Mesmo assim, o livro permanecia no colo, abraçado ao dedo dela, numa tentativa de parecer mais inteligente. O sol cortava o frio daquela manhã e coloria os olhos castanhos, aflitos por encontrar algum sentido na segunda-feira. A cidade acordava com preguiça diante dela.

Em cada parada, as pessoas começavam a se acumular em busca de um descanso rápido da rotina que mal tinha começado. Os sons da roleta, da buzina, do freio, dos bons dias tímidos compunham uma canção de ninar.

Sono.

Parada, Silvia encarava aquela fila organizada para embarcar. Essa organização tão primitiva talvez seja um instinto animal, pensou. Brutalmente, sua teoria de prateleira foi interrompida por um perfil muito familiar.

Os olhos se abriram para ver o que ela não acreditava como se um piscar pudesse desmanchar o que via. Silvia acompanhou cada passo daquele sorriso guardado que ela conhecia tão bem.

Era ele.

Ainda na roleta, um cumprimento amistoso. Ela, imóvel, engoliu qualquer frase que pudesse espantar a realidade. A boca semiaberta deixou escapar o silêncio.

Era mesmo Eduardo.

Numa rara sorte de dia útil, o lugar ao lado dela estava vago. Ele se sentou e agiu com uma naturalidade absurda. Um riso de canto não escondia seu prazer em ver como ela estava em choque.

 – Oi!

Os pensamentos e perguntas se misturavam como as cores da cidade vistas por aquela janela. A voz dele acordou a saudade sonolenta por esperar tanto tempo. Uma gargalhada saiu pelo nariz e rapidamente foi interrompida pelas mãos geladas da mulher.

O Neruda caiu aos pés dele, implorando para que aquele silêncio terminasse. Grato pelo altruísmo do livro, Eduardo o pegou rapidamente com um bom assunto na ponta da língua.

– É, você continua com um bom gosto pra livros. Terminou esse pelo menos?

-Não. Tô no comecinho ainda.

Silvia guardou na bolsa quase que no mesmo segundo em que seus dedos enrolavam os cabelos atrás da orelha. Sem o menor respeito pelo nervosismo dela, ele continuou.

– Tendi. Pelo visto não sou o único a não terminar as coisas por aqui.

Mesmo com uma raiva em forma de laço na garganta, entre tantas frases que ela tinha ensaiado para tal momento, Silvia deixou escapar a única que ela não queria.

– Senti sua falta.

Virado pra frente, ele respondeu em vazio. Os dois se acomodaram naquele infinito desconfortável. Ela, voltou imediatamente para a paisagem borrada.

Enquanto tentava pescar a coragem de retomar a conversa, Silvia sentiu os dedos dele procurarem os seus.

No meio daquele banco, as mãos, enfim, se abraçaram.

Num suspiro, a pergunta guardada desde o momento em que ela o viu ganhou som. Silvia se virou e falou bem baixo para que ninguém escutasse, nem ela mesma.

– Como é a morte, Eduardo?

Ele sorriu, deu um beijo na bochecha dela, e respondeu tão baixo quanto.

– Me diz você. Como se sente?

 

***

Continuidade do conto Chamada Não Atendida.

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